sábado, 8 de dezembro de 2012

O MADE - Museu do Artesanato e do Design de Évora abriu há um ano.


No seu primeiro ano de existência, o MADE teve três a quatro vezes menos visitantes que o antigo Museu do Artesanato nos primeiros doze meses de funcionamento

Fez no passado dia 10 de Novembro um ano que abriu, no edifício do Real Celeiro Comum, o MADE-Museu do Artesanato e Design de Évora. Criado por um protocolo assinado em Março de 2010 pela Entidade Regional de Turismo do Alentejo, pela Câmara Municipal de Évora e pelo colecionador Paulo Parra, o então chamado Museu do Design destinava-se inicialmente a albergar a coleção privada de objetos de design do referido colecionador no espaço onde até então tinha funcionado o Centro de Artes Tradicionais-Antigo Museu do Artesanato, que fora inaugurado em Setembro de 2007 e tinha beneficiado de um investimento de mais de um milhão de euros em recuperação patrimonial e aquisição de material de exposição.

Justificava, então, a Entidade Regional de Turismo esta nova parceria público privada com a alegada insustentabilidade do antigo Museu do Artesanato e com uma confessada falta de vocação para gerir um museu. Mas tais argumentos não satisfizeram a opinião pública que assistia com indignação à liquidação de um projeto de valorização das marcas de identidade da nossa Região e à oferta - a título gratuito - de um espaço nobre da Cidade e de todo o equipamento nele contido a um colecionador privado.

O movimento de opinião que se desenvolveu e culminou na criação da associação PERPETUAR TRADIÇÕES forçou os parceiros do Museu do Design a alterar o projeto, que passou a chamar-se de ”Museu do Artesanato e Design”, mas tal mudança cosmética não evitou uma denúncia feita à Comissão Europeia de desvio dos fundos disponibilizados por Bruxelas para um projeto diferente daquele para o qual tinham sido contratados. O processo que foi aberto pela Comissão forçou os parceiros do museu do design a novas adaptações, a fim de tentar dar satisfação formal às exigências de Bruxelas, impedindo assim que o artesanato alentejano fosse totalmente retirado das instalações do Celeiro Comum onde estava presente desde 1962.

Passou um ano sobre a abertura do MADE.

As peças de artesanato ocupam agora, apenas, uma parte da belíssima nave do Celeiro Comum, sem ordem aparente, sem pedagogia, com toda a parte escrita praticamente anulada. Boa parte do espaço é ocupada por peças de design da coleção Paulo Parra cujos catálogos substituíram na recepção todos os catálogos, folhetos e mais documentação escrita sobre o artesanato alentejano, que dela foram retirados. Foram anulados espaços de exposição para criar um gabinete para o professor Paulo Parra e para a sua biblioteca de design, mas um ano volvido sobre a inauguração do MADE, tais espaços continuam vazios e sem utilização. O Auditório do antigo Museu do Artesanato está inacessível ao público e desativado, inviabilizando a projeção de mais de uma vintena de pequenos filmes sobre a produção dos diferentes objetos artesanais da Região.

Neste primeiro ano de existência, e a ajuizar pelo número de ingressos vendidos, o MADE terá tido cerca de 3.000 visitantes. O Centro de Artes Tradicionais-Antigo Museu do Artesanato recebeu entre a sua inauguração em Setembro de 2007, e Setembro de 2008, perto de 11.000.

O MADE, entidade sem consistência nem conteúdo, serviu para eliminar um projecto válido e cientificamente suportado: foi o resultado de uma parceria negativa, negativa para a Cidade e para a Região, que pode conduzir pela sua visível insustentabilidade ao fim da presença do artesanato alentejano no Celeiro Comum.

A associação Perpetuar Tradições constata que a vida e os resultados concretos vieram a posteriori justificar plenamente toda a sua intervenção crítica e em defesa do Museu do Artesanato, e fica a aguardar com curiosidade as explicações que a parceria do MADE poderá apresentar.

Évora, 3 de Dezembro de 2012,
A Direcção,
Tiago Cabeça; A.Carmelo Aires; J.Andrade Santos; Miguel Sampaio; Celso Mangucci

sexta-feira, 9 de março de 2012

MADE, pago pelo contribuinte, tem 4 visitantes por dia

COMO NÃO SE FAZ …UMA EXPOSIÇÃO

Em 2007, para o programa da exposição permanente do Centro de Artes Tradicionais – Museu do Artesanato, foram elaboradas mais de uma dezena de curtas-metragens que registaram o processo de fabrico de uma série de artes emblemáticas do Distrito de Évora. O visitante podia, assim, além de contemplar as peças da exposição, conhecer as diversas técnicas envolvidas, por exemplo, no fabrico de um prato de olaria do Redondo, na moldagem de uma peça de estanho ou na manufactura de uma bota de couro, sempre através do trabalho emblemático de um artesão do distrito. A estratégia, muito comum na concepção das exposições para um público heterogéneo, com graus variados de formação e vivências, consistia em recolher e disponibilizar um conjunto variado de informações, em diversos suportes, para tornar as visitas aos museus mais atractivas e didácticas. Os pequenos filmes, as informações em textos de sala, as tabelas indicativas, os roteiros propostos de visita às oficinas nos diversos concelhos do distrito e o próprio catálogo da exposição permanente materializavam as ideias que presidiram à disposição das peças no espaço do Celeiro Comum, "transformando" uma colecção numa exposição que contava a evolução histórica do conceito de "Arte Popular" desde os finais do século XIX.

Como é já comum na museografia portuguesa nas duas últimas décadas, as vitrinas foram concebidas e executadas propositadamente para expor cada um dos conjuntos de peças, com dimensões muito variadas, ao mesmo tempo que conformavam o espaço depurado da arquitectura pré-industrial do Celeiro Comum. Indicavam trajectos, separavam conjuntos, individualizando com uma iluminação correcta as qualidades plásticas dos materiais. Uma escolha criteriosa de materiais, o aço escovado, o granito e o vidro suportaram esse discurso respeitoso para uma nova utilização do espaço histórico.

Confesso que tememos o pior quando ouvimos as primeiras declarações do coleccionador Paulo Parra sobre a sua fácil intenção de fazer articular uma colecção de design industrial do século XX com as peças dos artesãos alentejanos. E o pior confirmou-se. Agora, naquele espaço, faz-se crer que tudo é design, desde os artefactos da pedra polida até os nossos dias, e o conceito esvazia-se de significado e de coerência histórica. Sobram as peças quase mudas, transformadas em objectos para os quais não se conformou nenhum discurso. Mas nada justifica tamanho amadorismo na disposição da nova exposição que habita, desde Novembro de 2011, o espaço do Celeiro Comum. Vitrinas recicladas com papel auto-colante, peças amontoadas sem a mínima preocupação de escala em relação à vitrina que ocuparam, combinam-se alegremente com a ausência sistemática de informação sobre as peças e núcleos. Como qualificar a utilização dos anteriores suportes de informação de texto como suportes para os tapetes de Arraiolos, sem a mínima preocupação sobre a conservação das peças?

Tínhamos fundadas dúvidas de que o auto-proclamado Museu de Artesanato e Design de Évora pudesse trazer algum contributo para o estudo ou a preservação das artes tradicionais do Distrito de Évora, mas é verdadeiramente espantoso que também possa contribuir de maneira tão residual para o conhecimento e valorização do Design Industrial do século XX. O chamado MADE simplesmente não foi concebido para informar e instruir o público, que ignora de forma arrogante.

Não será essa a razão profunda de estar às moscas? Tem, em média, 4 visitantes por dia, ou seja, menos que o Centro de Artes Tradicionais (CAT) na fase final de agonia planeada em que lhe iam sendo retirados meios, funcionários e divulgação. A este ritmo, quando será que este atentado ao bom gosto e aos dinheiros públicos se tornará “economicamente rentável” como escreveram mo protocolo em que ofereceram aquele espaço à colecção privada do Senhor Parra a Câmara Municipal de Évora e a Entidade Regional de Turismo do Alentejo?

Antecipando estes resultados, a associação Perpetuar Tradições fez em Maio do ano passado uma comunicação à Comissão Europeia denunciando a destruição anunciada do Centro de Artes Tradicionais, e a intenção de utilizar os respectivos meios num outro projecto – o MADE – com manifesto desvio dos financiamentos públicos aplicados no CAT.

A Comissão Europeia abriu um processo e pediu os necessários esclarecimentos às autoridades portuguesas. A atabalhoada abertura do MADE em Novembro passado foi a reacção apressada da Entidade Regional de Turismo à comunicação da Comissão de Coordenação do Alentejo que considerava a possibilidade de declarar a ERT em incumprimento das suas obrigações contratuais face às entidades financiadoras, nomeadamente à União Europeia. De então para cá, assiste-se a um sistemático bloqueamento do processo, numa tentativa de impedir uma decisão até Julho deste ano, data em que o incumprimento da ERT pode prescrever.

A associação Perpetuar Tradições está atenta ao evoluir da questão e vai intervir para que as entidades competentes não se tornem cúmplices dessa tentativa de dilação.

Évora, 9 de Março de 2012.

Associação Perpetuar Tradições

A Direcção A. J. Carmelo Aires Celso Mangucci J. Andrade Santos Miguel Sampaio Tiago Cabeça

sábado, 24 de dezembro de 2011

Boas festas

Caros Amigos 2011 está a terminar, e é com perplexidade e apreensão que os cidadãos vêm chegar o novo ano. Em 2010 e 2011, mobilizámo-nos para defender o Museu do Artesanato regional contra os projectos de desmantelamento, cujo objectivo era disponibilizar os respectivos espaço e meios de exposição para a implantação de um pretenso “Museu do Design”, na prática para valorização de uma colecção particular. Defendemos publicamente as nossas opiniões em defesa do nosso património e das marcas da sua identidade. Apelámos à opinião pública, e recolhemos centenas de adesões às nossas posições. Denunciámos à Comissão Europeia os atropelos cometidos, e a utilização indevida de financiamentos públicos para fins diversos daqueles para que tinham sido contratados. A Comissão Europeia abriu um processo, cujos resultados estamos a aguardar, mas que já forçou os promotores do “Museu do Design” à abertura apressada de uma exposição sem brilho, que ainda nem sequer foi inaugurada um mês volvido sobre o seu início. A mediocridade do resultado e a menorização da presença do artesanato alentejano na sala do Celeiro Comum, agora maioritariamente ocupada com peças de design, vieram confirmar a razão do nosso protesto e mostrar-nos que devemos prosseguir com a nossa intervenção em prol da arte popular do Alentejo. A democracia é um regime de cidadãos, e a cidadania exerce-se no escrutínio permanente dos actos daqueles que estão investidos de algum poder, que lhes foi delegado pelo povo em quem reside a soberania. Por isso, em 2012, sem desânimos, vamos continuar. Boas Festas para todos! A Direcção

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Posição da Perpetuar Tradições sobre a abertura do pretenso Museu de Artesanato e Design

1.No passado dia 10 do corrente, e após um ano de encerramento do Centro de Artes Tradicionais – Antigo Museu do Artesanato, reabriram as portas do Celeiro Comum para apresentação de um pretenso “Museu do artesanato e do design” (MADE) a inaugurar lá para Dezembro, conforme informaram os promotores do negócio. A abertura foi discreta, o que se compreende face ao aspecto de impreparação e de falta de qualidade com que o visitante é confrontado, e que evidencia a pressa com que foi decidido reabrir as portas do Celeiro Comum, para marcar calendário perante o inquérito desencadeado pela Comissão Europeia no seguimento da denúncia apresentada pela Perpetuar Tradições. E a pressa foi tanta, que nem sequer foi retirado da fachada do Celeiro Comum o pendão que lá está desde 2007 anunciando a exposição”Marcas de Identidade”, exposição permanente de artesanato do Centro de Artes Tradicionais…

2.A belíssima nave do Celeiro Comum perdeu agora mais uma parte significativa do seu espaço de exposição, parte essa que foi ocupada por um gabinete para a direcção do MADE, por um espaço de biblioteca, e mais outro para reservas, cortando aliás a leitura da sala. O auditório onde se apresentavam filmes do realizador Francisco Manso sobre a produção artesanal de região, está fechado. Dos dois ecrans de plasma em que se projectavam pequenos filmes mostrando como se produzia esta ou aquela peça, resta apenas um. Os monitores através dos quais se acedia ao registo dos artesãos, às suas produções, e à história e ao acervo do Museu do artesanato, desapareceram. Do artesanato do Alentejo, que ocupava quase toda a nave do Celeiro Comum, resta apenas uma pequena exposição ocupando um terço ou menos do actual espaço expositivo, sem metodologia clara, sem enquadramento escrito, com tabelas feitas em geral sem critério e sem informação adequada, e na qual não se vê agora boa parte dos tipos de peças artesanais representativas do território e que se encontravam anteriormente representadas na exposição permanente “Marcas de Identidade” do Centro de Artes Tradicionais. Do total da estantaria que esta última ocupava, apenas metade continua agora ocupada com artesanato alentejano. Em contrapartida, as restantes 25 estantes do Centro de Artes tradicionais estão agora numa exposição de peças de design, e a zona central da nave, tradicionalmente ocupada com exposições temporárias de artesanato, apresenta agora mais design, numa exposição de cadeiras. Quem pudesse ter dúvidas quanto às reais intenções dos promotores do MADE – coleccionador Paulo Parra, Turismo do Alentejo e Câmara de Évora – e que foram também anteriormente os subscritores do protocolo de criação do “Museu do Design – Colecção Paulo Parra”, perceberá agora que o artesanato alentejano só ficou presente residualmente no espaço do Celeiro Comum para servir de álibi face às críticas da opinião pública e ao inquérito da Comissão Europeia.

3.O projecto do Centro de Artes Tradicionais – Antigo Museu do Artesanato, que foi cuidadosamente definido na sua museologia e na sua museografia e largamente publicitado junto das autarquias, artesãos e mais interessados antes da sua concretização em Setembro de 2007, teve o acompanhamento científico do Instituto Português de Museus, da Universidade de Évora, e da Comissão Interministerial para o Artesanato. Foi um projecto elaborado em estreita ligação com a comunidade, e que por isso teve a sua concretização apoiada financeiramente apoiada pelas autoridades nacionais e comunitárias. Encontra-se agora irreconhecível, gravemente mutilado e em risco de desaparecer, tal como o antigo Museu do Artesanato após o seu encerramento em 1991. Em seu lugar encontra-se algo indefinido, sem projecto divulgado, numa falta de transparência que não augura nada de bom, e confirma as preocupações de que se está perante uma utilização indevida de meios públicos. E a afirmação propagandística de que o MADE vai ser integrado na Rede Portuguesa de Museus não resiste à apreciação que anteriormente foi feita pelas entidades competentes, segundo a qual o espaço disponível no Celeiro Comum não viabilizava tal solução, levando na altura à substituição da designação de Museu do Artesanato Regional pela de Centro de Artes Tradicionais – Antigo Museu do Artesanato.

4.Importa recordar os factos que levaram à movimentação cívica que culminou na criação da Perpetuar Tradições – Associação de defesa do artesanato do Alentejo, e na intervenção pública desta em defesa do antigo Museu do Artesanato. O abandono a que foi votado o Centro de Artes Tradicionais , as repetidas declarações da Turismo do Alentejo alegando não ter vocação para gerir um Museu, o protocolo de 25.03.2010 de criação do Museu do Design – Colecção Paulo Parra ocupando as instalações do Centro de Artes Tradicionais, a posterior “emenda” feita em Julho do mesmo ano mudando-lhe o nome para Museu do artesanato e do design, o posterior encerramento do Centro de Artes tradicionais e, um ano volvido, a abertura à pressão de um MADE visivelmente improvisado, sem projecto divulgado e sem qualidade, tudo isto evidencia aquilo que os promotores deste negócio gostariam de esconder : o desprezo pela cultura popular e pelas suas manifestações. Por tudo isto, a Perpetuar Tradições entende que se justificou todo o trabalho até aqui desenvolvido em defesa do artesanato do Alentejo e do seu Museu. E a garantia de que, em nome desse objectivo, vamos continuar !

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Entidade Regional Turismo Alentejo abre Museu do Design amanhã

Pressionada pela Comissão Europeia

A Entidade Regional de Turismo do Alentejo (ERTA) pretende abrir amanhã, 11 de Novembro de 2011, de forma aparentemente discreta o novo Museu privado de Artesanato e Design que substituirá o Centro de Artes Tradicionais antigo Museu de Artesanato Regional de Évora existente desde 1962.

Aparentemente estará na origem desta decisão a pressão, pela Comissão Europeia, de fiscalizar a manutenção do projecto de Artesanato, cuja recuperação custou aos cofres Europeus - há apenas 3 anos - cerca de um milhão de euros, projecto que a ERTA defende será continuado nas mãos deste privado.

Na origem da queixa à Comissão Europeia está a Associação Perpetuar Tradições, que tem vindo a lutar pela manutenção do projecto original de Artesanato do CAT e sistematicamente vem denunciando esta entrega de património público a um privado, sem concurso público ou razão justificável. A ERTA que se justifica “sem meios” e “sem vocação” para “manter museus” será também, em protocolo já estabelecido com a Câmara Municipal de Évora, o garante financeiro deste projecto “privado” que pode ascender a mais de um milhão de euros para o contribuinte, arcando estas entidades durante pelo menos uma década com despesas que vão desde a conta da água a aquisições de novas obras.

Embora aparentemente e oficialmente abrindo portas amanhã não é conhecido se o novo Museu de Artesanato e Design estará de facto aberto ao público a partir desta data.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Évora - Centro de Artes Tradicionais de portas fechadas

O espaço onde funcionou o Centro de Artes Tradicionais (CAT) agora destinado ao Museu do Design e do Artesanato - «Colecção Paulo Parra», está de portas fechadas. Quem o garante é Tiago Cabeça, da Associação Perpetuar Tradições, entidade que tem a decorrer uma queixa junto da Comissão Europeia (CE) contra o encerramento do antigo espaço. A Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo e a autarquia de Évora permanecem em silêncio. Ana Clara | segunda-feira, 24 de Outubro de 2011 In Café Portugal Tiago Cabeça, da Associação Perpetuar Tradições, faz ao Café Portugal um ponto de situação sobre o encerramento do Centro de Artes Tradicionais e garante que «o alegado Museu do Artesanato e Design, tanto quanto sabemos, ainda não abriu, nem tem data de abertura prevista ou, pelo menos, conhecida». Entretanto o processo que aquela associação desencadeou junto da CE «continua os seus trâmites», uma acção que se insurge contra o encerramento do antigo CAT e que irá «destruir um projecto de preservação da nossa memória colectiva». Em causa, argumenta, está a alegada «violação da regulamentação comunitária e nacional em matéria de duração de vida dos empreendimentos financiados com fundos comunitários». «Em resposta a um pedido de informações da nossa parte à CE foi-nos respondido que decorria até há poucas semanas o prazo para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), entidade responsável pela aplicação local daqueles fundos europeus, alegar de sua justiça», informa Tiago Cabeça. O responsável insiste nas críticas e realça que «num contexto de gravíssima crise económica e social como a que vivemos no nosso país, seria no mínimo uma grande insensibilidade a Câmara Municipal de Évora e a Entidade Regional de Turismo do Alentejo colocarem às costas do contribuinte as despesas de um “Museu” privado que poderão ascender a mais de um milhão de euros». E adianta: «Cremos que uma posição inteligente e racional, mesmo do ponto de vista do contribuinte, seria recolocar tudo como estava antes no CAT e deixar este privado encontrar, e pagar, um museu que lhe agrade onde lhe agrade». Por tudo isto, Tiago Cabeça considera que «se deviam chamar associações de defesa do património, de artesãos, culturais e de cidadãos interessados na sua cultura e história e com estes continuar o projecto do CAT, melhorando-o». O dirigente da Perpetuar Tradições refere que «esta é uma altura de trabalharmos em conjunto na defesa daquilo que nos distingue e valoriza e não o seu contrário». «De outra forma também poderemos colocar a questão: qual a legitimidade de destruir a memória e o património público desta forma? Como devemos responsabilizar quem o faça?», questiona. Recorde-se que a decisão da localização do novo museu do design, aprovada em reunião pública de câmara de Évora (PS) em Abril, mereceu contestação dos defensores da preservação de um espaço que acolhe o acervo de artesanato da Entidade Regional de Turismo. O edifício, no centro de Évora, gerido pelo Turismo do Alentejo e fruto de uma parceria entre a ERT Alentejo, a Câmara de Évora e o coleccionador Paulo Parra, tem como finalidade acolher o museu de design, e, segundo os responsáveis, tem como objectivo a coexistência dos dois espólios e das duas actividades. A «Perpetuar Tradições», criada há cerca de um ano, assume-se como a voz da defesa do artesanato alentejano e apoia-se na luta contra o «fim» do CAT em Évora. O Café Portugal tentou obter mais pormenores junto da Câmara de Évora e da ERT Alentejo, mas até ao momento não conseguimos obter resposta de ambas as entidades.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Se houver bom senso o Museu do Design não irá abrir portas






Carmelo Aires, membro da direcção da associação Perpetuar Tradições que defende a manutenção do Museu do Artesanato

18:31, quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Luís Maneta | in Registo


Qual o fundamento da queixa apresentada pela Perpetuar Tradições em Bruxelas?
Não é propriamente uma queixa. Trata se de uma denuncia a Bruxelas por incumprimento de regulamentos comunitários relativos ao financiamento de projectos. Em termos práticos quer dizer que o projecto que conduziu à execução do Centro de Artes Tradicionais, vulgo Museu do Artesanato, foi coberto financeiramente, entre outros, por verbas do terceiro Quadro Comunitário de Apoio, sendo que esses fundos são aplicados ao abrigo de regulamentos comunitários que implicam uma serie de obrigações. Nomeadamente a manutenção do projecto durante um determinado período de tempo, tal como apresentado na candidatura, o não desvio dos objectivos do projecto e a manutenção dos postos de trabalho. Ou seja, aquilo para que a Comissão Europeia deu o dinheiro tem de ser cumprido.

E isso não aconteceu no caso do Museu do Artesanato?
O projecto foi acompanhado por uma comissão cientifica formada pela Universidade de Évora, Museu de Évora, Instituto Português de Museus, um representante da antiga Comissão Inter Ministerial para o Artesanato, ou seja uma comissão formada por pessoas competentes dentro desta área e que atestou a sua validade cientifica, tendo sido a Região de Turismo de Évora que o executou e se candidatou aos fundos comunitários.

E depois?
Quando a Região de Turismo de Évora se extinguiu e essas responsabilidades passaram para a Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo verificou-se um decréscimo do interesse da parte dessa entidade relativamente à manutenção das responsabilidades que lhe competiam por herança, digamos assim, quando ao projecto. O Museu do Artesanato foi deixado progressivamente ao abandono.

Desinvestiu-se?
Desinvestiu-se, efecutaram-se retiradas do acervo com justificações de que os custos não cobriam minimamente as despesas, deixou-se de promover exposições temporárias e o núcleo central da exposição, valiosa do ponto de vista da riqueza do artesanato, foi-se perdendo. Retiraram-se verbas, funcionários, até que o projecto deixou de andar para a frente. Contrariamente àquilo que era de esperar, que depois da fase de instalação se incentivasse uma nova dinâmica com ligação às escolas, que estava prevista, e aos artesãos, tal como consta da memória descritiva apresentada a Bruxelas, notou-se uma regressão de todos estes aspectos.

Acha que foi uma decisão intencional?
Achamos que foi intencional porque não se encontram outras razões que justifiquem estas atitudes. Alguns dos argumentos utilizados, como a falta de recursos financeiros, acabam depois por vir a ser desmascarados quando aparece o protocolo assinado entre a entidade que tem a responsabilidade do projecto, a Câmara Municipal de Évora, e o coleccionador Paulo Parra.

Em resumo: entende que foram utilizados apoios comunitários para um projecto que não foi executado como estava previsto. Esse dinheiro terá de ser devolvido?
De facto o projecto não foi executado, não foi cumprido nos prazos, objectivos e portanto agora temos vários graus de responsabilização que podem ser accionados pela Comissão Europeia. Primeiro vai-se verificar se há ou não matéria para levantar um inquérito e nós entendemos que há. Depois serão ouvidas as entidades nacionais responsáveis, em primeira linha, por vigiar e estabelecer o controle dos dinheiros comunitários aplicados ao projecto e depois a Comissão decidirá e proporá ao Estado Membro a solução a adoptar. Se este não der resposta satisfatória, será interposta uma acção que pode ir até à devolução das verbas. Digo que pode ir porque haverá cenários intermédios.

O projecto inicial foi comprometido?
Se não fosse assim não tínhamos avançado com esta denúncia. Antes de fazer a denúncia fizemos contactos e tentamos por várias vezes durante seis meses que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo resolvesse, como era sua responsabilidade, o problema do incumprimento. As respostas que nos dão ao fim desses tempo é a de que oficiaram por duas vezes a Turismo do Alentejo.

Houve omissão pela CCDR?
Não fizeram o que lhes competia no controle da aplicação das verbas num quadro comunitário de apoio e por isso ainda demos uma data limite para que nos fosse dada uma resposta concreta. Ultrapassado esse prazo avançámos com a denúncia. Sempre dissemos que iríamos utilizar todos os meios legais ao nosso alcance para eliminar este desvirtuamento e liquidação do projecto do Museu do Artesanato e que iríamos directamente mais acima, até Bruxelas. Demos tempo mais do que suficiente para obter uma resposta.

Esta é a única forma de parar o projecto?
Neste momento o processo está em Bruxelas onde já tem catalogado o número que o identificará. A denúncia está oficialmente registada e aguardamos que a Comissão Europeia através dos serviços competentes nos diga o que e se vai passar. Naturalmente que seremos também ouvidos durante o decurso deste processo.

Acredita que tudo possa voltar atrás e que o Museu do Artesanato seja reaberto?
Não posso pensar de outra forma. Seria muito mau se um projecto que não é cumprido, que é desvirtuado, acabasse por manter-se nesta situação com a complacência das autoridades nacionais e de Bruxelas. Isso levar-nos ia a tirar outras ilações que não queremos sequer acreditar possam existir. Fizemos todas as diligências nacionais e elas não resultaram. Fizemos esta junto de Bruxelas e estamos convencidos que, pelo menos, o processo de criação do Museu do Design terá que parar e ser repensado.

Não conheço ninguém, além da Câmara de Évora, da Turismo do Alentejo e do próprio coleccionador que defenda esta solução, pelo menos de forma pública? Porquê esta insistência no projecto?
Sabe que eu tenho feito essa pergunta a mim mesmo. O que é que levará a Câmara de Évora e o responsável da Turismo do Alentejo a prosseguir neste caminho? A Câmara Municipal de Évora diz que entra nisto porque a Turismo do Alentejo lho propôs. A ERT diz que foi a Câmara que iniciou a abordagem com vista a uma solução para acolher a colecção de Paulo Parra. Não sei quem é que começou, quem está a falar verdade. O que é facto é que o presidente da Turismo do Alentejo, nas suas várias intervenções públicas, tem posto uma tónica grande em tudo aquilo que é regional, na nossa matriz cultural, na nossa identidade.

Mas neste caso?
Neste caso concreto, a sua actuação é totalmente ao arrepio do que diz no contexto de outras marcas de identidade cultural. Se há alguma questão de natureza política ou pessoal por parte destas entidades não sei. Na Perpetuar Tradições, as pessoas que estão envolvidas são de espectros políticos vários e aquilo que nos move são razões de verdadeira cidadania pelo que a nossa posição não é político-partidária. É uma posição política, e ainda bem que é porque representa aquilo que de mais nobre existe na política, o assumir de posições em defesa daquilo em que acreditamos.

A associação não está contra um Museu do Design?
Exacto. Apenas achamos que não é compatível coexistir o Museu do Artesanato com o do Design industrial. Em primeiro lugar pelas características do espaço, que de si já é exíguo e não podia ser considerado museu por não poder cumprir todas as alíneas que o Instituo Português de Museus exigia para que fosse considerado como tal. Depois porque esta mistura não faz sentido.

Como assim?
O Museu do Artesanato foi pensado para salvaguarda e divulgação da memória colectiva dos alentejanos traduzida na sua arte popular. Não é para ser misturável nem minimizada face a uma colecção de design industrial oriunda de um conceito de globalização e de fabricação que tem toda a sua dignidade e que, com vantagens até para própria colecção, poderia ser instalada num outro sítio. Indicámos sugestões às pessoa que defendem essa mistura, nomeadamente nos armazéns da Palmeira, que a actual Câmara sempre deixou ao abandono inviabilizando o Museu de Arte Contemporânea de Évora, áreas no edifício dos Leões onde há um curso de design e onde o próprio Museu teria todo o sentido existir.

Não é por falta de espaço que não se equaciona outra solução?
Não, não é por falta de espaço alternativos. Em todo o caso, compreendo que é mais fácil pôr os ovos onde já existe um ninho. Está ali um espaço que foi construído com verbas públicas, tem um acervo público, está no centro da cidade … e depois logo se tenta arranjar maneira de dizer que a pedra lascada também é design e ligar aquilo tudo com o artesanato, com o que não pode ser justificável. Além disto, há frases e justificações para esta coexistência que são megalómanas e ridículas como a de Évora se poder transformar numa capital do design e entrar no grande roteiro das cidades mundiais do design.

Como analisa o papel da Câmara de Évora em todo este processo?
O actual mandato tem muito poucas obras que se possam ver. A concretizar-se, o Museu do Design seria algo mais que se apresentava como realização mas mesmo assim seria um insucesso. A Câmara tem uma posição de teimosia em todo este processo. Tem havido pouca sensibilidade e conhecimento daquilo que é o artesanato e a arte popular em termos de conceitos e identificação. Quando a vereadora do pelouro diz que as peças do Museu do Artesanato se podem encontrar em qualquer loja da cidade penso que mostra a pouca sensibilidade sobre o acervo que ali está e mostra desconhecimento sobre todo o seu trajecto desde os anos 60 e todo o esforço das gerações que estiveram na sua origem.

Falou em teimosia?
Estabeleceu-se um braço de ferro, a partir da Câmara, entre quem defende aquele projecto, o coleccionador que quer ver a sua colecção valorizada num espaço central da cidade, e as personalidades de mérito reconhecido que compõem a Comissão Municipal de Arte, Arqueologia e Património. A comissão pronunciou-se contra este projecto. E a Câmara de Évora ignora esta posição? A própria ministra da Cultura afirmou em documento escrito que o Museu do Artesanato tem validade para continuar e ser reforçado e o seu parecer é negativo relativamente à mistura que se pretende fazer entre arte popular com design.

Entretanto, o Museu do Artesanato está fechado. E o do Design não abriu.
Já foram realizadas obras no edifício, não se sabe quais, que estão na área de protecção do Igreja de São Francisco. Foram efectuadas obras que não foram dadas a conhecer à Direcção Regional do Ministério da Cultura. A Primavera já lá vai e o museu ainda não está aberto, com tudo o que isso implica de prejuízo para a cidade numa altura em que o fluxo de turistas é crescente. Considero que se houver bom senso o Museu do Design não irá abrir portas e a via do diálogo deve ser privilegiada, sendo que a mistura da colecção de design com o artesanato e a arte popular, naquele espaço, é inegociável para a Perpetuar Tradições.