segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Prémio: Ainda bem, senão é que estavamos tramados...

"Era meu colega na Universidade mas eu nem o conhecia..."

Claudia Pereira, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Évora
in Radio Diana a 5 de Abril de 2010,
sobre a sua eventual relação com o colecionador privado de design.

Prémio: O resto será o Génio da lâmpada...

"A Câmara vai apoiá-la (a proposta do Museu de design privado) com uma pequena intervenção inicial de execução interna, o transporte das peças, um funcionário e apoio logístico,(...) num prazo nunca superior a 10 anos."

Claudia Pereira, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Évora
In Café Portugal 27 Dezembro 2010

Obrigações estabelecidas por protocolo

Segundo protocolo do putativo Museu de Artesanato e design entre a Câmara, o Turismo do Alentejo e o Colecionador

Obrigações da Câmara Municipal de Évora
Adaptação de espaço.
Mobiliário
Impressão de material de divulgação
Sustentabilidade económico financeira (durante dez anos)
Um funcionário
Despesas de seguro
Despesas de segurança activa
Despesas de segurança passiva
Apoio impressão de suportes de divulgação gráfica
Apoio impressão de suportes de divulgação digital
Apoio impressão de suportes de divulgação bilheteira
Apoio com equipa de montagem e desmontagem de exposições
Apoio técnico de processos de candidaturas financeiras
Água
Luz
Transportes
Divulgação em suportes da Câmara
Obrigações do Turismo do Alentejo
Obras
Mobiliário
Espaço
Equipamento
Pessoal técnico
Limpeza
Apoio técnico a processos de candidaturas
Divulgação electrónica
Divulgação gráfica
Renda do espaço ao estado
Obrigações do colecionador
Apoio à instalação da sua colecção
Cedência de equipamento
Custo de telecomunicações
Gestão da colecção
Gestão de 2 quadros superiores em design (não especifica quem os pagará)
Gestão dos fundos de aquisições (não especifica de onde serão provenientes estes)

Prémio: Afinal talvez tenha sido ideia nossa lá na Câmara...

(Claudia Pereira vereadora da Câmara Municipal de Évora...) Adianta que o projecto museológico para o novo Museu chegou-lhe às mãos em Novembro de 2009, tendo, na altura, reunido com o Presidente da ERTA, Ceia da Silva, propondo aquele espaço do Celeiro Comum para a sua instalação.

In Café Portugal 27 Dezembro 2010

Évora - Futuro do Centro de Artes Tradicionais continua envolto em polémica

Estava previsto abrir as portas no Outono de 2010. Mas o novo Museu do Design e do Artesanato - «Colecção Paulo Parra», situado no espaço onde até agora funcionava o Centro de Artes Tradicionais (CAT), no antigo celeiro comum, continua fechado, devido ao arrastamento do processo e ao atraso nas obras. Entretanto, surgem alegadas contradições denunciadas pela «Perpetuar Tradições», associação de defesa do artesanato do Alentejo. A autarquia de Évora responde às acusações, pela voz da vereadora da Cultura, Cláudia Pereira.

Ana Clara Café Portugal | segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

A polémica levantada pela «Perpetuar Tradições» surge na sequência das declarações da vereadora da cultura da Câmara de Évora (CME), Cláudia Pereira, à Antena 1 em Outubro passado, quando a edil afirmou que a ideia de transformar o Centro de Artes Tradicionais em Museu do Design não partiu do município mas da Entidade Regional de Turismo do Alentejo (ERTA) e do coleccionador, Paulo Parra.

Tiago Cabeça, membro daquela associação, considera que tais declarações são de «uma estranha leveza, pela irresponsabilidade política de quem deveria velar pelo bem público, patrimonial e cultural».

«Bastará um privado bater-lhe à porta e pedir um edifício público para o ter? Sem concurso público? Sem estudos ou razões de fundo que o justifiquem? Parece que existe na Sr.ª vereadora `a convicção` que Évora se tornará uma ´Capital internacional do design`. Chegará isso?», questiona o responsável.

E acrescenta que a vereadora da Cultura da CME «alegou não ter dinheiro para manter o Centro de Artes Tradicionais ,antigo Museu de artesanato de Évora, que existe desde 1962, e a que estava dedicada uma funcionária apenas, mas propõem-se sustentar o putativo museu de design privado com um rancho dependente de cerca de uma dezena de pessoas».

Tiago Cabeça afirma que, a ser verdade que a ERTA, «num primeiro momento, se aproximou da autarquia de Évora no sentido de pedir auxílio para manter e prosseguir o projecto do Centro de Artes Tradicionais, e a câmara liminarmente o recusou, mostraria que o desprezo pela nossa cultura, história e tradição, bem como pelo dinheiro dos contribuintes, parte justamente da Câmara».

E vai mais longe, deixando a dúvida no ar: «se a condição de manter aquele espaço passa pela aniquilação do projecto do artesanato e sua substituição pela colecção privada de design industrial do século XX, daquele coleccionador, coloca-se-nos a questão: porquê?».

Tiago Cabeça recorda ainda que este novo espaço terá entre outras despesas (garantidas pela Câmara) cerca de uma dezena de pessoas a trabalhar. «Dificilmente a CME, considerando as graves dificuldades económicas que têm vindo a público, terá capacidade de o sustentar», garante, lembrando que para garantir a sua «alegada auto-sustentabilidade, numa estimativa optimista, necessitaria de mais de seis ou sete milhares de visitantes por mês. Seria difícil».

«Sobretudo porque quem procura o Alentejo certamente não procura Design Industrial do século XX. Restaria ser o próprio coleccionador a manter esse batalhão de gente e custos», sugere.

Vereadora responde
O Café Portugal contactou a vereadora da Cultura da autarquia de Évora, Cláudia Pereira, no sentido de perceber o que de facto se passou. A autarca começa por explicar que o espaço do Celeiro Comum, como é conhecido o edifício onde estava o Centro de Artes Tradicionais e onde se propõe instalar o Museu do Design é da tutela da ERTA.

«O coleccionador Paulo Parra deu a conhecer a Évora, no espaço municipal da Igreja de S. Vicente, em Julho de 2009, parte da sua colecção. São estes os três vértices desta relação», diz.

Adianta que o projecto museológico para o novo Museu chegou-lhe às mãos em Novembro de 2009, tendo, na altura, reunido com o Presidente da ERTA, Ceia da Silva, propondo aquele espaço do Celeiro Comum para a sua instalação.

«Nesse mesmo espaço reuni, pela primeira vez, em Dezembro de 2009, com o coleccionador e esclareci qual a intervenção a ser feita bem como a articulação entre o espólio existente e o novo espólio. Tendo aceite a proposta, esta foi levada a duas instâncias: à Comissão de Arte, Arqueologia e Defesa do Património, com apresentação do projecto museológico pelo coleccionador, e cuja deliberação tem carácter consultivo, pode apenas dela ser porta-voz quem a preside, ou seja a vereadora da Cultura, e é utilizado como parecer pelo executivo da CME», explica.

Nos termos da lei, salienta, foi levada a reunião pública de Câmara, em forma de protocolo, onde foi aprovada: «a proposta é exterior à CME e optou a CME por considerá-la uma mais-valia para o Concelho e apoiá-la com uma pequena intervenção inicial de execução interna, o transporte das peças, um funcionário e apoio logístico, num compromisso que durará até que o Museu tenha auto-sustentabilidade e nunca num prazo superior a 10 anos, uma novidade em protocolos assinados no passado entre a CME e outras entidades».

Atrasos
Sobre os atrasos da abertura do Museu, previsto para o Outono deste ano, Cláudia Pereira admite que o processo se arrastou «devido à necessidade de haver autorizações e pareceres para se proceder à alteração pelo Turismo do Alentejo do uso daquele espaço». Além disso, «pelo facto de se necessitar de algumas obras por parte da ERTA o que tem procedimentos a cumprir, o espaço encontra-se ainda encerrado». «Só depois desta intervenção serão feitas as intervenções pela CME: transporte das peças e instalação das vitrines», realça.

A vereadora sustenta ainda que neste espaço, para além dos dois acervos – o do artesanato e do design industrial, «ambos caracterizados por produções em série que aliam a forma à função, com uma preocupação estética que os torna objectos dignos de serem expostos e apreciados» – o coleccionador privado investirá «naquilo que é o mais caro em qualquer parte do mundo: pessoas qualificadas para tirarem mais e melhor partido daqueles objectos; haverá também um espaço de biblioteca sobre artesanato e design industrial; planificam-se intercâmbios entre este e outros museus de artesanato e de design internacionais com circulação de espólios».

«Não só Évora e o Alentejo ficarão a conhecer e a dar a conhecer objectos congéneres aos que estarão expostos, como os objectos originais do Alentejo serão levados a outras partes do Mundo», refere.

Por fim, Cláudia Pereira recorda que «a riqueza da dinamização de um espaço é essa mesma, tal como o que é interessante na salvaguarda da atractividade das manifestações culturais, como são as peças de artesanato e os objectos de design industrial, para além do seu estudo “arqueológico”, que as insere no seu tempo de origem refazendo a sua “biografia”».

Contactado pelo Café Portugal, Ceia da Silva, presidente da ERTA, não quis falar sobre o assunto, alegando que «falará na altura própria» sobre a polémica.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"Durmo perfeitamente à noite com esta decisão"

Claudia Pereira vereadora da Câmara Municipal de Évora em entrevista à Radio Diana em 5 Abril 2010

Edição de imagens do CAT Museu de Artesanato por Miguel Sampaio
video

sábado, 18 de dezembro de 2010

O mistério adensa-se

"Esta ideia (de transformar o museu publico de artesanato de Évora em museu de design privado) não partiu da Câmara Municipal de Évora, partiu do Turismo do Alentejo e do colecionador" ...
Claudia Pereira
Vereadora da cultura da Câmara Municipal de Évora em entrevista à Antena 1, 26 Outubro 2010


Diz-nos um passarinho, que esvoaçou próximo do Turismo do Alentejo, que de facto, num primeiro momento, esta entidade pediu ajuda à Câmara municipal de Évora para manter o Centro de Artes Tradicionais antigo Museu de Artesanato, mas a Câmara terá recusado. Só mais tarde, aparentemente, a autarquia teria reconsiderado colocando, no entanto, a condição: ou é Paulo Parra e Museu de Design, ou não é nada.

Será verdade?... E a ser quem gostará mais de design industrial do século XX?... O senhor Presidente da Câmara? A senhora vereadora da cultura?...
Como em todas as boas estórias de detectives cá ficaremos a aguardar os próximos capitulos...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Museu de Arte Popular reabre hoje para contar a sua própria história





Ana Dias Cordeiro In Publico 13 de Dezembro de 2010


O caminho do Museu de Arte Popular, em Lisboa, tem sido feito de avanços e recuos. Fechou em 2003 e esteve para não reabrir. Um movimento cívico deu-lhe nova vida. Mas por agora é uma vida parcial


Por agora, será uma reabertura apenas parcial do Museu de Arte Popular (MAP) com a inauguração esta tarde de Os Construtores do MAP - Um Museu em Construção. A exposição contará a história do próprio museu lisboeta e explicará como nasceu a colecção e quem foram os arquitectos, artistas e pensadores envolvidos na sua criação. Depois da exposição, cujo fim está previsto para Maio do próximo ano, a data para a reabertura definitiva do museu continua ainda incerta.

Um ano? Dois? A directora do MAP, Andreia Galvão, não faz previsões. Nomeada há um ano, quando saiu da subdirecção do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar), a arquitecta diz que a instalação e inventariação completa da colecção, actualmente guardada no Museu de Etnologia, também em Lisboa, "é um trabalho titânico" que, não duvida, se fará, mas com tempo. "Há um trabalho de estudo, conservação, restauros, instalação, que é um trabalho de fundo que o museu tem [ainda] de fazer", explicou ao P2.

Foi nisso que começou a envolver-se ao mesmo tempo que foi pondo esta exposição de pé, para garantir que não havia mais atrasos num processo feito de avanços e recuos: em 2006, a então ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, anunciou o fim do MAP e a decisão de acolher no mesmo espaço o Museu da Língua; no ano passado, a actual responsável pela pasta, Gabriela Canavilhas, garantiu que o museu era para manter e que abriria, com certeza, em 2010. Essa garantia seguiu-se ao movimento cívico que juntou nomes como o do crítico de arte Alexandre Pomar e o da empresária Catarina Portas e resultou numa petição contra o encerramento definitivo do museu, fechado em 2003 por falta de condições do edifício.

"Abrir um museu que estava em rota de encerramento já foi um passo de gigante", diz Andreia Galvão, sobretudo devido à "índole da própria colecção, que é claramente de época e de um coleccionador que era o Estado Novo", continua. "É uma colecção completamente híbrida na sua forma de construção porque resulta de uma recolha feita quer por artistas, como [Carlos] Botelho, Tom [Dom Tomás de Melo], e outros, quer por etnógrafos, como Francisco Lage ou [Luís] Chaves."

Expressão do modernismo

A poucos dias da inauguração da exposição, berbequins e outras máquinas ultimam as obras junto ao átrio de entrada onde, intacto, está o mural que representa Portugal, numa síntese do que se pode ver nas restantes salas: as regiões administrativas pintadas em grandes painéis por Paulo Ferreira, Tom, Manuel Lapa, Estrela Faria, Botelho, Eduardo Anahory. Esta é a parte restaurada. A outra metade do edifício entrará em obras brevemente.

Estas pinturas são expressão do movimento modernista português, que fascinou António Ferro, um progressista dentro do Estado Novo que fundou o Museu de Arte Popular. Director do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), mais tarde Secretariado Nacional de Informação (SNI), Ferro travou duras batalhas contra os conservadores do regime em defesa da arte moderna.

Mais do que mostrar peças da colecção - haverá muito poucas - a exposição conta a história do museu porque é isso que é possível fazer neste momento: "É uma história de modernos, vanguardistas, de um Ferro futurista, companheiro destes arquitectos e artistas. Estamos a contar a história desta gente", diz Andreia Galvão.

A partir de hoje, Os Construtores do MAP revelam também as várias fases por que passou este edifício frente ao Tejo, que começou por ser um dos pavilhões (sem janelas) da Exposição do Mundo Português, em 1940, organizada para festejar as datas da fundação do país (1140) e da restauração da independência (1640) e que foi expressão do espírito nacionalista da época. Depois chegou a ser armazém da Cruz Vermelha durante a Segunda Guerra Mundial e esteve para ser o Museu do Povo, abrindo em 1948 com o nome que manteve até hoje.

"Foi um museu mal-amado, não-compreendido e não-interpretado", diz a directora, sobretudo logo a seguir ao 25 de Abril. Esteve várias vezes para ser fechado, nos anos 70 e 80. Foi considerado um "museu fascista", mas, na verdade, defende a arquitecta, com produção "de grande qualidade". "E não só nos murais, [também] nas artes decorativas, na museografia", explica. "Este museu é um museu de comunicação", pensado para mostrar ao mundo o que é Portugal.

Passaram 60 anos e o MAP nunca entrou na lista de museus a remodelar, ficou intacto: "Em parte, a sorte deste museu tem a ver com isso - mantém-se como documento."

Para o interior, voltou agora a cor de origem, "casca de ovo", "com uma doçura que tem muito mais a ver com a terra" do que o branco que durante anos cobriu as paredes.

Em grande parte, o MAP de hoje é, aliás, o MAP de 1948. "Este museu nunca pode renegar o espírito daquele tempo. Porque está cá, está no espaço."

domingo, 12 de dezembro de 2010

Prémio: faz como eu digo não faças como eu faço

"O que hoje se pede é a diferença, o que é distinto e único, aquela riqueza que faz do território algo raro.
Alentejo, turismo e identidade"


Ceia da Silva - Presidente do Turismo do Alentejo
2 semanas depois de encerrar o Museu Público de Artesanato de Évora para no lugar fazer um Museu Privado de Design Industrial, a pagar pelo contribuinte.

in Público 12 de Dezembro de 2010

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Embaixada da solidariedade à reabertura do Museu de Arte Popular em Lisboa

Segunda feira 13 de Dezembro
18h
MUSEU DE ARTE POPULAR - Lisboa


Caros amigos

Reabre na próxima segunda feira dia 13 às 18h o MUSEU DE ARTE POPULAR em Lisboa, que esteve encerrado para, num processo semelhante ao do nosso CAT, vir a ser convertido noutro espaço.

Foi justamente um movimento de cidadãos que conseguiu impedir esse encerramento e segunda feira, com a presença da Ministra Gabriela Canavilhas, o Museu de Arte Popular reabre ao público.

Nesse sentido estamos a organizar uma “Embaixada de solidariedade” por parte da Perpetuar Tradições e do Centro de Artes Tradicionais antigo Museu de Artesanato de Évora à reabertura do Museu de Arte Popular. Vamos partilhar a nossa experiencia e conhecer a experiencia de outros. Vamos continuar a denunciar este verdadeiro crime.

Deixamos o convite a quem queira integrar esta embaixada connosco.

Informamos também que continuamos os nossos esforços, em várias frentes, para denunciar e tentar impedir o encerramento do CAT Antigo Museu de Artesanato de Évora


A Direcção:

Tiago Cabeça
Carmelo Aires
Andrade Santos
Miguel Sampaio
Celso Mangucci

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Comissão Coordenação Região Alentejo não recebe emails da Perpetuar Tradições

Desde o passado dia 26 de Novembro que a Comissão Coordenação da Região Alentejo (CCDRA) aparentemente não recebe correio electronico da Perpetuar Tradições associação de defesa do Artesanato do Alentejo.

Os membros desta associação já se viram obrigados a encaminhar correspondencia - relativa ao Centro de Artes Tradicionais, antigo Museu de Artesanato de Évora - pela tradicional via postal, registado e com aviso de recepção, pois todas as missivas sobre este assunto, dirigidas ao Presidente daquela entidade João de Deus Cabral Cordovil aparentemente nunca lhe chegavam, fossem para os endereços institucionais fossem para os pessoais do seu secretariado.

Relembramos que a CCDRA é a entidade que tem por obrigação regular e fiscalizar subsidios europeus utilizados no Alentejo, justamente como os que foram utilizados, há apenas dois anos, na recuperação do Centro de Artes Tradicionais, Antigo Museu de Artesanato de Évora, encerrado há 2 semanas para ser convertido em Museu de Design de um privado.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O ARTESANATO, A MEMÓRIA E A FELICIDADE (3)

Por Francisco Martins Ramos

Como se sabe, o artesanato enriquece a oferta turística, mediatiza o contacto de culturas, cria postos de trabalho, ocupa os mais velhos, gera riqueza e alimenta a dinâmica da mudança, colocando em saudável confronto o passado e o presente.
Os artefactos são um produto que se inscreve naquilo que se entendeu denominar por turismo cultural, embora todo o turismo seja cultural. De facto, os produtos culturais e as atracções desempenham um importante papel turístico a vários níveis, desde a divulgação global da cultura, às acções que enfatizam as identidades locais (Mbaiwa 2004). Na realidade, o conceito totalizante de cultura compreende o que as pessoas sabem e pensam (conhecimentos culturais), como as pessoas se comportam e reagem (comportamentos culturais) e o que as pessoas fazem e manufacturam (artefactos culturais).
O turismo cultural é uma modalidade que se centra, justamente, nos recursos culturais. Ora, os recursos culturais não se limitam aos monumentos, às comunidades e sítios, ao património construído ou aos mitos e lendas. Dizem respeito também aos estilos de vida, às práticas habituais e às actividades passadas e às recentes que sobreviveram e se adaptaram.
O “empowerment” dos produtores de artesanato através da salvaguarda das técnicas tradicionais, da adaptação de técnicas inovadoras (principalmente as que aliviem o esforço físico dos artesão), do empreendedorismo e da utilização de práticas de boa gestão são mecanismos que contribuem seguramente para o sucesso económico do turismo cultural. Trata-se efectivamente de, pela via da cultura, chegarmos à economia.
Aquando da inauguração do Centro de Artes Tradicionais - Museu do Artesanato, em Évora, afirmei que tal projecto demonstrava a riqueza caleidoscópica do artesanato alentejano. Iniciativa de qualidade total, aquele momento marcou um episódio histórico para o enriquecimento da oferta turística eborense e alentejana. A batalha sinuosa que foi necessário travar para a concretização daquela obra só nos pode dar satisfação porque foi uma batalha vencida.
Espaço cultural por excelência, aquele museu corporizou o casamento entre a tradição e a inovação tecnológica, numa afirmação contemporâneo dos mais avançados instrumentos museológicos. O Museu do Artesanato de Évora é, como foi dito na sua inauguração, “a devolução à cidade e ao Alentejo” duma parte do seu património.
Invadir o território de um museu temático existente, descaracterizar uma realidade coerente na sua afirmação sócio-cultural, histórica e identitária, amputar um espaço artesanal por interesses de conveniência, misturar traços culturais com afirmações de modernidades de natureza diversa e antagónica é um crime de lesa-cultura, uma afronta ao legado que nos foi deixado e uma armadilha envenenada à idiossincrasia alentejana. Apetece recordar Sophia: “Eles sabem muito e não percebem nada”.
Parafraseando mais uma vez Sommier (1984), posso concluir afirmando que o artesanato é como a felicidade - só no momento em que desaparece é que damos conta do seu valor. Para aquele artesanato que não resiste ao progresso da sociedade, nada melhor do que mantê-lo preservado, protegido e higienizado pela dignidade museológica de origem.

Bibliografia
MBAIWA, Joseph
2004 “Prospects of Basket Production in Promoting Sustainable
Rural Liveliwoods in the Okavango Delta, Botswana”, International Journal of Tourism Research 6: 221-235
RAMOS, Francisco Martins
2007 Breviário Alentejano, Vale de Cambra: Caleidoscópio
SOMMIER, Gilbert
1984 Presente y Futuro de las Artesanías en la Sociedad
Industrial, Madrid: Ministerio de Industria y Energia

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O ARTESANATO, A MEMÓRIA E A FELICIDADE (2)

Por Francisco Martins Ramos

O artesão alentejano (que é o que nos interessa, de momento) afirma-se embrionariamente e potencia-se no longo período medieval e tem a sua época de ouro a partir do Renascimento. Um pouco como aconteceu por toda a Europa. Os trabalhos artesanais e de manufactura doméstica, actividade acessória da agricultura, que em si mesma constitui a base do processo, condicionam o modo de produção em que assenta, quer na Antiguidade, quer na Idade Média europeia, a economia natural.
Assim, a nível económico, a actividade artesanal permitia e permite a reunião de factores de produção num mesmo agente económico independente e fomentava a pluriactividade; ao nível técnico destaca-se a possibilidade de execução pelo mesmo indivíduo de operações que integram a totalidade ou a maioria do processo produtivo; a nível artístico permite a expressão de sentimentos estéticos, de origem essencialmente popular, mas também erudita; a nível intelectual, o artefacto consubstancia e reflecte o predomínio de factores psicológicos sobre os factores mecânicos, no processo da manufactura e produção.

A situação actual da actividade artesanal é diversa: de modo geral podemos afirmar que os ofícios artesanais colaboradores ou complementares da indústria (metais, electricidade, mecânica), não enfrentarão tão cedo problemas de sobrevivência; outras tarefas artesanais encontram-se numa posição intermédia, dependendo da oscilação do poder de compra e do nível de vida das populações. Encontram-se nesta situação os artífices da área da alimentação, dos serviços, da construção e os ofícios que dependem das modas e até de posicionamentos ecológicos (os chamados neo-artesãos de extracção urbana, mas de horizontes rurais). Finalmente, existem actividades artesanais que vão fatalmente desaparecer ou que já se extinguiram silenciosamente.

É neste sentido que a musealização dos artefactos desaparecidos ou em vias de extinção desempenha um papel crucial na salvaguarda da memória colectiva, na transmissão dos saberes tradicionais às novas gerações e na compreensão do passado, recente ou distante. Os designados Museus Rurais, Museus do Artesanato, Museus Agrícolas, Museus de Aldeia, Museus Etnográficos, etc., aí estão a atestar e a legitimar as raízes locais e regionais, os estilos de vida dos quotidianos da autenticidade vivida, dolorosamente marcada, nuns casos, e eleita como referência identitária, noutros.

Entretanto, é bom não esquecer que muitas das práticas artesanais são caracterizadas por grande fragilidade e vulnerabilidade; pertencem a sectores marginais da vida económica; enfrentam dificuldades na obtenção de créditos; possuem dimensões reduzidas e, last but not the least, as necessidades às quais correspondiam muitos ofícios artesanais desapareceram ou definham. Os exemplos proliferam, nomeadamente os ligados ao sector primário e ao mundo da ruralidade: cardadores, ferreiros e ferradores, alfaiates e modistas, latoeiros, padeiras e forneiros, almocreves, cesteiras, taberneiros, amola-tesouras, carreiros, bordadeiras, sapateiros, abegões, funileiros, chocalheiros, cadeireiros, etc.

É certo que a procura das raízes artesanais e as inúmeras iniciativas em acção procuram camuflar suavemente situações de desemprego. Mas ao mesmo tempo, e acima de tudo, a solução artesanal é, justamente, uma procura do tempo perdido e um regresso às origens. Num mundo de mudanças tecnológicas crescentes, num universo de velocidades, stress e ritmo acelerado, o recurso à obra artesanal é o retomo do homem às formas mais puras e naturais da estética popular, é o encantamento das coisas simples e utilitárias, é o prazer da ligação do artista com o produto do seu trabalho, que se pode sintetizar na expressão "o artefacto é obra do artífice". Num mundo de mudanças também sociais, o recurso à obra artesanal é o retorno do Homem às formas mais singelas de arte, é a procura da autenticidade perdida, é a aventura da descoberta sentimental da cumplicidade do artesão com o produto do seu trabalho. A globalização, a que gera uniformidades, provoca certamente a homogeneidade cultural que desejamos evitar, salvaguardando aquilo com que nos identificamos há gerações.

Bibliografia
RAMOS, Francisco Martins
2007 Breviário Alentejano, Vale de Cambra: Caleidoscópio

SOMMIER, Gilbert
1984 Presente y Futuro de las Artesanías en la Sociedad Industrial, Madrid:
Ministerio de Industria y Energia