quinta-feira, 13 de maio de 2010

Assembleia Municipal de Vendas Novas - Moção


Não ao encerramento do Museu do Artesanato de Évora
Foi tornada pública a intenção da Câmara Municipal de Évora e do Turismo do Alentejo de instalar as peças de design do colecionador Paulo Parra no edificio do antigo celeiro comum, onde desde 1962 se encontra o Museu do Artesanato Regional, a partir de 2007 designado por Centro de Artes Tradicionais. Se tal vier a concretizar, a consequencia imediata é acabar com o Museu de Artesanato.
Não se compreende que haja quem possa sugerir a hipótese de encerrar um Museu do Artesanato representativo de uma riquíssima arte popular, num dos territórios do nosso país mais marcados por esse tipo de manifestações tradicionais, do qual constitui uma das mais claras marcas de identidade.
Não se compreende que a Câmara Municipal de Évora e a Entidade Regional de Turísmo do Alentejo se arroguemo direito de liquidar friamente algo que não lhes pertence, um museu de arte popular que desde o 25 de Abril está à guarda do poder local, através da Assembleia Distrital de Évora.
Não se compreende que se pretenda transferir para outra utilização um espaço onde foi recentemente investido perto de um milhão de euros em obras de renovação e adaptação, financiadas com fundos públicos de origem nacional e comunitária, expressamente com vista à reabertura do antigo museu do artesanato.
Não se compreende que numa cidade como Évora, património da humanidade, com tantos edificios de qualidade, se fale em encerrarum Museu para no seu lugar instalar uma colecção privada de design.
Por isso entendemos dever propor a esta Assembleia que se pronuncie contra o encerramento do Museu do Artesanato Regional

Aprovado pela Assembleia Municipal de Vendas Novas
com 12 votos da CDU e 3 votos do PSD; 8 Votos contra do PS

Salvemos o “Museu do Artesanato”

O Protocolo acordado entre a Entidade Turismo do Alentejo (ETA), a Câmara Municipal de Évora (CME) e o coleccionador Paulo Parra (CPP), que visa a instalação da colecção de Design do último no antigo Museu do Artesanato, merece-nos quatro pequenos comentários.

1. O articulado já aprovado em reunião pública de Câmara por PS e PSD permite perceber, claramente, que a ETA descarta com este acordo as responsabilidades que herdou da Região de Turismo de Évora de gerir o Centro de Artes Tradicionais, estrutura de vocação distrital, na origem da qual esteve o Museu do Artesanato (criado em 1962), da responsabilidade da Assembleia Distrital.
Sem uma avaliação pública da gestão e da actividade do CAT, sem se perceber se a Assembleia Distrital está de acordo com esta solução, depois de ter encerrado a loja de apoio há um ano, agora a ETA dispõe-se a acabar de vez com esta estrutura cultural da cidade e da Região; não se percebe se esta decisão foi tomada por " interesse turístico" ou por incapacidade de viabilizar uma estrutura que recebeu ao absorver a RTE.

2. O executivo PS da CME, com o apoio do PSD, torna-se co-responsável pela extinção do CAT, estrutura cultural "identitária" da Região, no que parece ser uma tentativa de se redimir do completo falhanço da criação na cidade de um Centro de Design de Moda, tão propagandeado em campanha eleitoral. Acabar com o CAT parece não merecer reflexão profunda por parte deste executivo camarário.

3. Saúda-se a disponibilidade do coleccionador ao ceder "à cidade" a sua colecção, por dez anos, sem contrapartidas pessoais de qualquer renda. Por certo, como homem de cultura, não quererá ficar com o ónus de contribuir para o encerramento de uma "casa de cultura popular", quando encontra acolhimento para a sua colecção, sonho e realização de uma vida. Seguramente, está disponível para que, sem pressas, as duas entidades interessadas em expor a sua colecção encontrem uma solução melhor para a instalação condigna, tanto mais que o antigo Celeiro Comum não tem, à evidência, área suficiente para albergar todas as valências do futuro Museu de Design de Évora-Colecção Paulo Parra.

4. É de estranha legitimidade e de duvidosa legalidade a solução acordada pelos três parceiros para a administração e gestão do “Museu de Design de Évora”: as duas entidades de direito público (Turismo do Alentejo e Câmara) que acabam com o Centro de Artes Tradicionais, criam a suas expensas todas as condições físicas, logísticas e financeiras para que o objecto do acordo funcione, não tenham, no seu funcionamento nenhuma hipótese de controlar ou influenciar a sua gestão e administração, nas quais o coleccionador terá poder total e discricionário.

Dito isto, por certo se se reflectir nas consequências do articulado pouco consistente deste Protocolo aprovado pela Câmara, será ainda possível reformulá-lo de modo a acautelar eventuais dificuldades legais e a preservar o Centro de Artes Ttradicionais naquele local e instalar condignamente, noutro edifício, a Colecção de Design de Paulo Parra; esperamos que a cidade ganhe mais um pólo cultural sem ter que perder outro.

Manuel J.C. Branco*
In Semanário Registo, 13 Maio 2010
* Historiador

Eduardo Luciano em defesa do Museu do Artesanato

Há alguns dias que, em certos meios da cidade, não se fala de outra coisa.

A possibilidade de vir a encerrar o Centro de Artes Tradicionais tem gerado inúmeras conversas, solidariedades e tomadas de posição.

Tudo isto começou com a apresentação em reunião pública de câmara, de uma minuta de protocolo para a criação de um museu de design.

Trata-se de um acordo tripartido entre um coleccionador privado, a Câmara Municipal e a Entidade Regional de Turismo, que prevê a utilização do espaço onde hoje existe o Centro de Artes Tradicionais para a instalação do dito museu do design.

Aquando da discussão do conteúdo do protocolo, foram colocadas pelos vereadores da CDU várias questões, cujas respostas não considerámos satisfatórias.

Tratando-se de um protocolo em que o Município assume a totalidade da logística, a adaptação do espaço, e os meios humanos necessários ao seu funcionamento, seria natural que junto do mesmo fosse apresentada um estudo que nos esclarecesse qual o valor em causa. Tal não aconteceu e nem em reunião de câmara a vereadora do pelouro ou o presidente foram capazes de dizer com clareza quais os custos para o município da instalação daquela colecção privada.

Previa o tal protocolo a manutenção deste apoio por parte do município até que o referido museu atingisse a auto-sustentabilidade, o que, segundo previsão da responsável do pelouro, aconteceria ao fim de dez anos.

Como o protocolo tem a validade de 10 anos, facilmente se conclui que o apoio se manteria durante toda a sua vigência.

Entendemos que tal distribuição de encargos e benefícios se manifestava lesiva do interesse público.

Nada me move contra a instalação de uma exposição permanente de peças de design industrial na nossa cidade, nem contra o proprietário do acervo a expor. Entendo até que a diversificação da oferta, com a instalação desta exposição permanente, constitui uma mais-valia para o concelho.

O que já não me parece razoável é que essa instalação se faça num espaço onde existe um Centro de Artes Tradicionais e em sua substituição.

Surgem agora argumentos que vão no sentido de nos tentarem convencer que as duas realidades podem coexistir naquele espaço.

Dando de barato a questão do enquadramento das Artes Tradicionais com o Design Industrial, num mesmo espaço, que nos parece francamente improvável e indesejável, basta uma leitura atenta da minuta do protocolo para se perceber que não existe uma única referência à manutenção do que constitui hoje o acervo do Centro de Artes Tradicionais.

Dois aspectos me parecem perfeitamente claros neste processo: por um lado uma desequilibrada distribuição de benefícios e encargos pelos parceiros, ficando, na prática, o município a sustentar a exibição de uma colecção privada de peças de Design Industrial, por outro lado a morte não anunciada de um espaço museológico dedicado às artes tradicionais que a acontecer será um verdadeiro crime de lesa cultura.

Por estas duas razões, eu e os meus companheiros eleitos pela CDU na Câmara Municipal votámos contra a assinatura daquele protocolo.

Lamentavelmente a maioria PS/PSD teve o entendimento contrário. Se existir bom senso ainda vão a tempo de voltar atrás e propor um novo protocolo, mais equilibrado e instalando a colecção de peças de design num outro espaço.

Bem sei que estou a pedir um milagre, mas como hoje é 13 de Maio…



Eduardo Luciano*
in Crónicas da DianaFm, 13 de Maio 2010

(*Candidato e vereador CDU à Câmara Municipal de Évora)

O que dizem outros

Joaquim Caetano, ex director do Museu de Évora, é um dos subscritores de uma Moção de Apelo em defesa do Centro de Artes Tradicionais, que resultou da visita do passado sábado, 8 de Maio.


Em Évora o assunto da agenda política é, por estes dias, o Museu do Artesanato - Museu do Design.
O curioso é que assim sendo, os protagonistas façam todos os esforços para não falar sobre o assunto. Até quando vão conseguir manter o silêncio, é uma das muitas perguntas sem resposta.


O caso é paradigmático da forma de agir dos poderes políticos protagonistas na nossa democracia. Falam do que querem, quando querem, sobre o que lhes interessa. A transparência, a informação ou prestação de contas, o respeito pelos cidadãos que representam, continuam a ser consideradas cerejas que tão facilmente podem enfeitar o bolo, como ser completamente dispensáveis, sob um qualquer argumento minimamente condizente com o bolo em presença.


Assim, são os que não têm capacidade de gestão e interferência directa na coisa pública que é o Centro de Artes tradicionais/Antigo Museu do Artesanato, cidadãos reconhecidos na cidade e na região, que têm vindo a público dizer que não é aceitável que se mude assim de ideias com tanta facilidade e tão pouca explicação. Ou seja, se ainda há cerca de dois anos foram feitos investimentos significativos num Centro de Artes Tradicionais, como vir agora dizer que o Museu tem de mudar de ramo, porque isto do artesanato não é atractivo, não está na moda, mas que o design é que sim.

Parece brincadeira. Mas tudo se passa à custa de dinheiros públicos. Tudo isto parecer depender apenas da pessoa que se senta na cadeira. Mudando a pessoa, tudo muda com ela, até os acervos dos Museus.


Numa coisa todos estão de acordo, todos gostam de Museus. Sejam eles de artesanato, de design, de pintura, de escultura, de marionetas, e de tantas outras possibilidades que dariam para pôr um em cada rua. Mas como não é possível ter para todos os gostos, convém explicar porquê este em vez daquele, de forma a que a maioria dos eborenses compreenda. E já agora, não vale brincar com o argumento que o Centro de Artes Tradicionais não é economicamente rentável. Ou teríamos de fechar o Museu de Évora, a Biblioteca Pública, o Teatro Garcia de Resende ...
O que todos queremos é abrir novos espaços destes, não fechar os que existem.

Publicada por Dores Correia Blogue A cinco tons

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Marcas de identidade que nos distinguem numa era de globalização

A importancia da cultura e da arte popular no contexto da globalização e invasão de objectos de todo mundo revela-se pelo que nos distingue e é autentico.
Há que fazer a defesa dessas marcas identitárias das quais o artesanato é uma suas das principais manifestações.
Este caso é um reflexo da incapacidade de algumas pessoas fazerem este tipo de reflexão, sobre a importancia para nós como comunidade da defesa da promoção e divulgação da arte popular, que tem no artesanato a sua expressão concreta.
O protocolo celebrado entre a Câmara Municipal o Turismo do Alentejo e o Colecionador Paulo Parra revela uma grande ligeireza e irresponsabilidade na solução encontrada para a exposição de uma outra colecção - que terá interesse mas não deveria prejudicar a importancia da nossa cultura popular - e para a qual podem encontrar-se outras soluções na cidade.
Existencia de uma colecção com uma qualidade minima que seja é sempre proveitosa mas não prejudicando outras coisas que são mais importantes, mesmo que pretendendo-se atingir outros objectivos economicos como essa “autosustentabilidade” do Museu de Artesanato.

Carmelo Aires
(Ex Presidente da Comissão Coordenação Região Alentejo)
Na Visita ao Museu Artesanato a 8 Maio 2010

Possíveis Ideias futuras para o Museu Artesanato Évora


Porque a Câmara Municipal de Évora (CME) e o Turismo do Alentejo (TA) celebraram em protocolo a possibilidade de financiar integralmente o Museu de Design privado até à sua “sustentabilidade” tomamos a liberdade de propor encaminhar os mesmos fundos para a “sustentabilidade” do Museu Publico de artesanato. Assim deixamos aqui algumas ideias que apelamos sejam complementadas por quem o considere pertinente.

Reforçar quadros gestão

Com adjudicação por concurso interno rigoroso e público, dentro da CME e do TA (por exemplo por protocolo entre as partes), de um técnico superior ao Museu. Tónica do concurso na experiencia e criatividade para desenvolvimento futuro deste. Concurso mais encaminhado para técnicos superiores das areas da Cultura, Turismo e Desenvolvimento economico da CME e TA. Abrir a todas no entanto.

Envolver associações de artesãos a nivel Regional
Como orgãos consultivos e porventura deliberativos reforçar assim carácter Regional do espaço.
Promover junto destas parcerias eventos como “O artesão ao vivo da semana” ou “Como fazer um objecto”, ou afins.

Reconhecimento Oficial
Inventariar todo património. Procurar reunir as condições para o reconhecimento do estatuto que já teve de Museu Regional. Reforçar este uma vez re-obtido.

Reforçar acervo
Com novas aquisições. Novas propostas. Procurar objectos perdidos. Enfase também nas novas tendencias.

Protocolos com a Universidade
O protocolo para o Museu de design invocava o nome da Universidade nomeadamente "Criar um Museu de Design que contribua para reforçar a qualidade do ensino na Universidade de Évora" no entanto esta instituição não era de forma visivel interveniente neste documento. Propomos pelo contrário tentar estabelecer parcerias conjuntas, nomeadamente com o departamento de história e outros para a Identificação de percursos históricos do artesanato e a descoberta dos objectos que mudaram a região e o país. Artesanato do Alentejo nos Descobrimentos. O artesanato do Alentejo no mundo.

Protocolos com o IEFP
No seguimento das décadas de formação profissional na área do artesanato procurar envolver o Museu e o IEFP no rastreio dos resultados obtidos com esse investimento do estado português: Novas tendencias do design de artesanato; novas propostas do artesanato. Envolvimento destas propostas na vida moderna e no quotidiano.

Protocolos com outros Museus
Protocolos com Museus de artesanato do país, Câmaras municipais e/ou outras entidades/particulares para intercambio de exposições e/ou experiencias.
Fazer o mesmo com Museus internacionais.

Promover o Museu
Como a promoção do Museu é quase inexistente (uma vez que até a maioria dos Eborenses desconhece que este existe) desde a sua reabertura há dois anos propomos que os gastos que se previam, por parte da CME e do TA em material gráfico, material digital, campanhas promocionais, publicidade, etc para o Museu do Design Privado aconteça de facto, mas para o Museu de Artesanato Público.

Roteiro Cultural para crianças e familias
Envolver o Museu de artesanato de Évora, outros nucleos museológicos Regionais e outros na criação de um Roteiro cultural para crianças e familias. Museus, Adegas, lagares, panificadoras, parques temáticos, colecções privadas, etc... Vocacionar todo um roteiro para visitas culturais diversificadas que contribuam para estadias turísticas mais prolongadas e façam, de cada criança e de cada pai turista no Alentejo, um embaixador cultural da região.

Em defesa do Museu de artesanato

Estabeleci como regra não voltar a temas abordados em crónicas anteriores, no entanto, porque o assunto me é caro e dada a importância do que está em causa, vou abordar de novo o encerramento do Museu do Artesanato – Centro de Artes Tradicionais, para instalar no edifício que este actualmente ocupa, o Museu do Design – Colecção Paulo Parra.

Não sou contra (nem ninguém de bom senso o poderia ser) a instalação em Évora de um equipamento como o Museu do Design; é bem-vindo. Oponho-me, isso sim, ao fim de um repositório do que é a nossa memória colectiva. Porque de um fim se trata, já que pelo que me foi dado ler, o protocolo celebrado entre a Câmara Municipal de Évora, o Turismo do Alentejo e o coleccionador, o Professor Paulo Parra é omisso quanto ao destino a dar a este acervo.

Para onde vai? Sob a responsabilidade de quem? Estará disponível para ser visto? Ficará a população privada da mais-valia que ele representa? Perguntas pertinentes que carecem de resposta, até agora inexistente.

Foi investida uma soma considerável de dinheiro para que o Museu do Artesanato tivesse um espaço condigno. Isso pressupõe uma vontade política, algo que seja consistente no tempo, que ultrapasse a mera conjuntura determinada pela cadeira do poder. Não se pode mudar agulha apenas porque surgiu uma proposta que é, dadas as circunstâncias mais apetecível do que já estava instituído. Negar esta regra sem razões plausíveis é abrir uma “Caixa de Pandora”. Se essas razões são de natureza financeira, encerrar um museu é atentar contra a cultura, privar a população de um bem, apenas porque o Estado entende que deve gerir um equipamento público como se fora privado. Ninguém numa democracia pode ter este entendimento das coisas. Chama-se a isso desrespeito pelos cidadãos, que no fundo são quem suporta tal equipamento.

Como do protocolo resulta que continuaremos a ser nós a viabilizar com os nossos bolsos o Museu do Design, pelo menos até ser economicamente sustentável - quando irá acontecer essa viabilidade não se sabe - a questão que se põe é se a decisão de substituir um museu por outro não deveria ter sido mais participada.

Sem colocar em causa as boas intenções dos envolvidos, gostaria de frisar que as características do espaço inviabilizam a disponibilização simultânea dos dois acervos em causa, e se como já ouvi, irão ser expostas peças pertencentes ao museu do Artesanato, quer na exposição permanente, quer em exposições temporárias, quem será o responsável pela gestão e manutenção do acervo do Museu do Artesanato? O director do Museu do Design? Ou guardam-se os artefactos num armazém, encaixotados, e quando for necessário recorre-se a eles?

Esta história está toda muito mal contada. Transparência precisa-se.

Quando falei do Cemitério dos Prazeres, como é óbvio ficcionei, jamais paguei o que quer que fosse para lá entrar, mas convenhamos que com o caminho que as coisas levam, qualquer dia, artesãos e artesanato só mesmo nos cemitérios.

Depois não digam que é tarde.


Miguel Sampaio (ex candidato à Câmara Municipal de Évora pelo Bloco de Esquerda)
in Crónica DianaFm