segunda-feira, 17 de maio de 2010

Há Museus que se recusam a morrer!





Criado no Estado Novo, mal-amado quase desde o início, pior amado depois do 25 de Abril, o Museu de Arte Popular fechou, esteve para acabar e transformar-se no Museu da Língua. Afinal, voltou como Arte Popular. Esta terça-feira abre as portas por um dia para mostrar porque é valeu a pena ter sobrevivido.
(Daniel Rocha)

Há quatro anos, estávamos nesta sala a assistir ao fim do Museu de Arte Popular (MAP). A então ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, chamou os jornalistas e comunicou-lhes que o espaço, que se encontrava encerrado, iria ser transformado no novo Museu do Mar da Língua.

Havia já um projecto de arquitectura que previa que as pinturas murais fossem emparedadas - quem quisesse vê-las teria que se encolher e espreitar por detrás das paredes falsas. Dificilmente alguém acreditaria que aquele não era o fim do museu inaugurado em 1948 por António Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) e com que o Estado Novo quisera celebrar a cultura popular.

Mas, contra tudo e contra todos, o museu conseguiu expulsar a Língua e as paredes falsas, e reabre agora as portas para uma inauguração antecipada de um dia. Só será verdadeiramente inaugurado no último trimestre do ano, mas, amanhã, Dia dos Museus, o MAP vai mostrar-se de novo à cidade (entre as 10h e as 18h, com visitas guiadas, oficinas de artesanato e teatro).

Estamos de volta à mesma sala e o que se vê são técnicas da Fundação Ricardo Espírito Santo, no cimo de andaimes, a trabalhar no restauro das pinturas murais. Afastada a ameaça de emparedamento, os grandes painéis que decoram as paredes das várias salas são, num museu que ainda não recuperou a sua colecção (guardada temporariamente no Museu de Etnologia, mas pronta a regressar), o centro das atenções.

Há o painel de Lisboa, em tons de amarelo e azul, com peixeiras, manjericos, Santo António e fado (pintura de Paulo Ferreira, 1948), há, do mesmo autor, Terra Saloia, permanente romaria da Estremadura, Ribatejo, arte popular da bravura, e Nazaré, ex-voto do Mar Português. Tomás de Mello (Tom) e Manuel Lapa pintaram, logo na primeira sala, Minho, caixa de brinquedos de Portugal. As Beiras couberam a Carlos Botelho, o Alentejo a Estrela Faria, Trás-os-Montes a Eduardo Anahory, a Tom e a Manuel Lapa, e o Algarve novamente aos dois últimos.

"Como é que passou pela cabeça de alguém que era possível ocultar estas pinturas?", indigna-se o crítico de arte Alexandre Pomar, um dos activos defensores da continuação do MAP (juntamente com a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, a empresária Catarina Portas, e as artistas Joana Vasconcelos e Rosa Pomar, que chegaram a ir bordar para a porta do museu como protesto), e que no seu blogue (alexandrepomar.typepad.com) tem reunido uma enorme quantidade de informação sobre a história do museu.

"Não têm a componente política de serem artistas da oposição, mas não são menos valiosos por isso", defende, referindo-se à equipa de pintores modernistas reunida por Ferro. "São representantes de um compromisso dos pintores modernistas, uma modernidade pacificada. Este é o momento que melhor sobreviveu do trabalho dessa equipa que se destacou na Exposição do Mundo Português em 1940 [para a qual foi construído o primeiro pavilhão, o da Vida Popular, que viria a ser adaptado para o MAP pelo arquitecto Jorge Segurado] e em exposições internacionais", como a das Artes e Técnicas da Vida Moderna, em 1937, em Paris.

O capitão Henrique Galvão [que viria a celebrizar-se pelo afastamento do regime e o assalto ao paquete "Santa Maria"] "atacou ferozmente aqueles pintores, acusando-os de um cosmopolitanismo europeu quando a arte portuguesa devia desenvolver a sua relação com o Ultramar", explica Pomar.

"Esse apelo que Ferro faz à estética modernista em conjunto com a valorização da arte popular tem muito a ver com o seu contacto, logo desde os anos 20, com o movimento modernista, nomeadamente na Semana da Arte Moderna, em 1922 em São Paulo", sublinha Vera Marques Alves, antropóloga e autora da tese Camponeses Estetas no Estado Novo.

"Ele faz essa afirmação da identidade nacional através da reinvenção da estética popular já na [revista] Ilustração Portuguesa [início dos anos 20] e em 1921 fala na criação de bailados portugueses que recuperem o folclore, ideia que mais tarde leva à criação do Grupo de Bailado Verde Gaio." É uma alternativa à História dos grandes feitos e heróis, e "a estética contemporânea é uma forma de mostrar a arte popular como afirmação de uma nação plena de vitalidade no presente" e não a viver de glórias passadas.

O que é o "popular" hoje?

O MAP "é um projecto que vem de 1936, altura em que é completamente contemporâneo", explica Vera Alves. Mas sofre atrasos e em 1948, quando abre, "já está um bocadinho fora do tempo". É sobretudo um projecto de Ferro, diz a investigadora, e "nunca é muito acarinhado pelo regime". Sofre sempre de problemas estruturais, só tem electricidade em 1952, nos anos 60 corre o risco de fechar, mas o seu exterior serve de palco, no final dessa década, ao Mercado da Primavera, que, depois do 25 de Abril, se transforma no Mercado do Povo.

Mas, ao contrário dos outros museus do seu tempo, o MAP sobreviveu, congelado, praticamente esquecido. Chegou "intacto até hoje e é isso que o torna um caso único", defende o antropólogo João Leal. "É raro encontrar exemplos de museus que tenham sobrevivido tanto ligados ao seu projecto inicial."

O que se faz hoje de um museu assim? "É importante mostrá-lo como produto de um determinado discurso que teve a sua época e que pode ser desconstruído", diz João Leal. E abri-lo às expressões das culturas populares de hoje. "Durante muito tempo, elas eram valorizadas como testemunho de um mundo em extinção. Procurava-se o que era autêntico, legítimo, o menos tocado pelas culturas urbanas."

Hoje sabe-se que nunca nada esteve nesse estado puro e que as culturas populares foram sempre híbridas e inseridas em dinâmicas históricas. É possível "pôr em diálogo o popular e o erudito", assumir a hibridização do popular, afirma Leal, lembrando as queens (rainhas) das festas do Espírito Santo, nos Açores, uma influência dos emigrantes que foram para os Estados Unidos e o Canadá.

É a Andreia Galvão, directora do MAP e autora de uma tese sobre o arquitecto Segurado, que cabe a tarefa de "descongelar" o museu. Como? Primeiro, assumindo este museu-documento como uma cenografia que ele sempre foi (Segurado falava na arquitectura como cartaz, lembra Galvão), nesse conjunto "indissociável" entre arquitectura, pinturas murais (com as frases que as acompanham, que terão sido inventadas pela poeta Fernanda de Castro, mulher de Ferro) e a colecção.

Para já, o MAP, com uma equipa ainda pequena mas com um "corpo de voluntariado notável", será um "museu em obra", aberto a quem queira ver como vai nascendo - isso acontecerá no site que será apresentado amanhã, e no qual será possível marcar visitas guiadas ou fazer inscrições nos ateliers de Verão. O exterior, que está degradado, vai também ser recuperado.

Haverá núcleos de memórias. "Estamos a trabalhar com a Cinemateca, teremos filmes de época, sobre a Exposição do Mundo Português e não só, vamos recorrer a muitos documentos da época. Com o Museu do Traje estamos a estudar a possibilidade de trazer o núcleo ligado ao Grupo de Bailado do Verde Gaio", explica a directora. A colecção de fotografias do "povo português" em trajes tradicionais, que estava nas paredes do museu e foi guardada no CCB quando ele fechou, já está de volta e vai ser recuperada.

A colecção só regressará do Museu de Etnologia para a reabertura definitiva, mas para já será possível ver o mobiliário expositivo da época, de Jorge Segurado e Tom, que está a ser recuperado.

Haverá também núcleos interpretativos temáticos ligados aos diferentes espaços no museu. E, claro, a ligação à contemporaneidade: "Vamos explorar o conceito de contemporâneo na arte popular, trabalhar coisas como a reutilização de materiais orgânicos ou a investigação tecnológica no ramo das técnicas tradicionais." O MAP será ainda "uma embaixada do país em Lisboa" aberto às comunidades "para mostrarem o melhor que tenham, da gastronomia às festas".

Só muito poucos acreditaram que seria possível. Mas amanhã o MAP vai provar que há museus que se recusam a morrer.


17.05.2010 - 11:55 Por Alexandra Prado Coelho in Publico 17 Maio 2010

Museu de Arte Popular reabre a 18 de Maio




Mau grado as "sensibilidades culturais" dos responsáveis politicos desta nossa provincia um exemplo claro do que nos devia servir de guia neste caso do Museu de Artesanato de Évora. Nas palavras da Directora do Museu de Arte Popular: “Queremos estabelecer pontes entre o passado e a contemporaneidade. Este museu foi sempre o cerne de uma dicotomia entre a tradição e a modernidade”, observou a responsável, comentando que actualmente “há uma atenção especial para o ‘folk’, o popular”. Um artigo do Público muito oportuno que poderá mostrar aos nossos responsáveis politicos locais o que é realmente importante.

"O Museu de Arte Popular, em Lisboa, vai reabrir para visitas guiadas e actividades pedagógicas no dia 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus, revelou hoje à Lusa a directora do espaço, que se encontra encerrado e que esteve em risco de acabar.
O MAP estará aberto ao público para as comemorações do centenário da República (Enric Vives Rubio)

“A partir de dia 18 de Maio vamos fazer visitas guiadas e outras actividades de animação, como oficinas pedagógicas em parceria com outros museus”, disse Andreia Galvão no final de uma visita de deputados da Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura ao espaço situado em Belém.

Os deputados estiveram durante toda a manhã de hoje em visita ao Museu Nacional dos Coches, ao Museu Nacional de Arqueologia e ao Museu de Arte Popular, onde foram recebidos pelos respectivos directores para conhecer a situação destes espaços museológicos.

“As parcerias e o trabalho em rede são fundamentais nos dias de hoje”, sustentou a responsável, sem adiantar quais os museus que estarão envolvidos, mas, para já, a entidade vai trabalhar com as Regiões de Turismo do país.

Fundado em 1948, oito anos após a Exposição do Mundo Português, para a qual o edifício foi criado, o Museu de Arte Popular - com um acervo que ascende a cerca de 15 mil peças de actividades artesanais populares de várias áreas, desde cerâmica, brinquedos a cestaria - manteve-se encerrado desde 1999.

Ainda sob a tutela da então ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, esteve para ser transformado em Museu da Língua, mas o actual Ministério da Cultura, depois de uma grande movimento cívico a favor da preservação do simbólico espaço, decidiu manter a finalidade original de albergar a arte popular do país.

Andreia Galvão disse ainda que o programa do museu está actualmente em preparação, ao mesmo tempo que está a ser estudado e recuperado o enorme acervo que se encontra depositado no Museu Nacional de Etnologia.

“Queremos estabelecer pontes entre o passado e a contemporaneidade. Este museu foi sempre o cerne de uma dicotomia entre a tradição e a modernidade”, observou a responsável, comentando que actualmente “há uma atenção especial para o ‘folk’, o popular”.

A directora acredita que será possível fazer visitas guiadas e realizar actividades pedagógicas ao mesmo tempo que decorrem obras de remodelação do edifício, que, neste momento, está a receber um tratamento de restauros das pinturas das paredes interiores.

Ex-vice-directora do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico (IGESPAR), Andreia Galvão deverá reabrir o novo projecto museológico para o Museu em Outubro de 2010, no âmbito das comemorações do Centenário da República."



In Público 17 maio 2010

Os Museus e as tradições

“ Sendo Évora uma cidade com um valor histórico e patrimonial único e inquestionável, que por isso mereceu a reconhecida classificação da Unesco, necessita de uma oferta mais contemporânea e diversificada que contribua para o seu rejuvenescimento cultural pretendendo-se com este protocolo contribuir para a colocar, à sua escala, no roteiro das cidades “Capitais do Design”. Desse modo diferenciado, habilita-se a atrair novos públicos, novos investimentos e novas populações. Nesse contexto propõe-se a criação de um núcleo museológico e de massa crítica na área do Design, capaz de desenvolver acções de promoção da cidade enquanto centro privilegiado de pensamento contemporâneo”.
Assim sustenta o protocolo celebrado entre o Município de Évora, o Turismo do Alentejo e o Coleccionador Paulo Parra, a necessidade da instalação do “Museu do Design – Colecção Paulo Parra” na cidade de Évora.
A ideia é de louvar, uma parceria público-privada para a instalação de um equipamento cultural na nossa cidade. De facto a noção que os forasteiros têm de Évora, é a de uma cidade culturalmente activa, com uma Universidade centenária, e com um notável Património Imaterial e Edificado que radica numa história milenar. Estariam à partida criadas todas as condições para que tal iniciativa se concretizasse.
É isso inclusive que transparece dos objectivos propostos:
“- Criar e manter em Évora um Museu de Design com o acervo da Colecção Paulo Parra com vista à sua digna apresentação ao público nacional e internacional;
- Desenvolver uma linha de programação e de investigação na área do Design;
- Sensibilizar o público em geral para a problemática do Design e da Cultura Projectual;
- Informar e formar os públicos especializados e profissionais na área do Design e da cultura em geral;
Iniciar um processo articulado e coerente de musealização do “Design Português”;
- Elaborar um projecto museológico dinâmico com uma forte vertente de investigação e de experimentação. Proporcionando um Museu flexível, multifuncional, com zonas abertas ao público em geral e com espaços dedicados a formação por intermédio de Workshops, seminários e laboratórios;
- Criar um Museu de Design que contribua para reforçar a qualidade do ensino e investigação do design na EU, bem como do ensino do design e investigação noutras entidades nacionais e internacionais, por via da disseminação de informação associada ao acervo em causa e pela promoção de acções relacionadas com a investigação científica na área;
- Criar um Museu que contribua para permitir o posicionamento de Évora como centro cultural integrado nas grandes Capitais Mundiais do Design.”
Quer-me parecer entretanto que tudo isto navega um pouco entre Cervantes e Gil Vicente, melhor dizendo, entre D. Quixote e Mofina Mendes.
Em primeiro lugar porque quixotescamente, este generoso empreendimento pretende transformar Évora numa das “Grandes Capitais do Design,” Informar e formar os públicos especializados e profissionais nas áreas do Design e da Cultura em geral? Ambiciosa generalização esta, e é aqui que entramos no campo da Mofina Mendes. Com que meios?
O que pensa disto a UE? Já que é referida como parceira na consecução do projecto. Onde estão os estudos feitos que permitam afirmar de forma tão taxativa que o referido Museu seja não só um pólo de atracção turística, mas também um catalisador para a fixação de novas populações?
Poderia continuar este tipo de questões, creio no entanto que estas são bastantes para legitimar as minhas dúvidas. Trata-se de contar com os ovos de Mofina, ampliados à dimensão dos gigantes de Quixote.
Tudo isto seria menos controverso, até mesmo pacífico, se, tratando-se de uma parceria, os riscos do projecto, nem falo dos putativos ganhos, fossem equitativamente repartidos, a começar pela criação de um espaço de raiz onde se instalasse o Museu do Design, mas não.
Foi decidido, diria mesmo congeminado, pelos intervenientes, desalojar o Museu do Artesanato – centro de Artes Tradicionais, para dar berço ao nascituro, e aqui reside o busílis. Encerra-se um espaço museológico, reaberto há dois anos, cuja recuperação custou mais de um milhão de Euros, para fazer mais obras de adequação e substituir o acervo exposto, e que é público, com o fito de lá instalar uma colecção que continuará, por contrato, a ser privada.
Isso é decidido numa olímpica indiferença pela opinião dos contribuintes, e justificado através de uma resposta dada numa entrevista radiofónica e de comentários mais ou menos anónimos em Blogues, que felizmente ainda não estão sujeitos ao lápis azul e nos vão dando conta do que por cá se passa.
É triste, esta falta de transparência, como é penoso ouvir, que o Museu do Artesanato, não se justifica por não ser auto sustentável, ou que não passa de um Centro de Artes Tradicionais, ou que o seu acervo tem paralelo no comércio local, não se justificando por isso a sua existência, ou ainda que não vai desaparecer sendo o seu espólio, reafirmo espólio, absorvido pelo acervo da Colecção Paulo Parra.
Com que direito?
Como é possível desqualificar desta forma um repositório cultural de tantas gerações, a matriz representada de uma região, alegando que um outro museu trará mais gente, sustentar-se-á no curto prazo, (dez anos constituem a vigência do protocolo), transformará Évora numa das Capitais do Design.
Em que se baseiam para afirmar isso?
Quem vos garante que os próximos inquilinos do Sertório não farão o mesmo e instalarão um Museu do que for mais conveniente na Arena de Évora por exemplo?
Instalem o Museu do Design noutro sítio, a população agradece. Se o fizerem ganha-se mais um Museu, se insistirem neste projecto, perde-se muito mais do que um Museu. Perde-se cultura, perdem-se referências.

Miguel Sampaio in Diario do Sul 17 Maio 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Petição Pública pelo Museu artesanato de Évora (Publicada a 28 Março de 2010)


Continuamos a recolher assinaturas na petição on-line pelo Museu de Artesanato de Évora aqui e incitamos os amigos do Museu Regional de Artesanato de Évora a continuarem a divulgar esta petição. O Link é o seguinte:

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N1721

Assembleia Municipal de Vendas Novas - Moção


Não ao encerramento do Museu do Artesanato de Évora
Foi tornada pública a intenção da Câmara Municipal de Évora e do Turismo do Alentejo de instalar as peças de design do colecionador Paulo Parra no edificio do antigo celeiro comum, onde desde 1962 se encontra o Museu do Artesanato Regional, a partir de 2007 designado por Centro de Artes Tradicionais. Se tal vier a concretizar, a consequencia imediata é acabar com o Museu de Artesanato.
Não se compreende que haja quem possa sugerir a hipótese de encerrar um Museu do Artesanato representativo de uma riquíssima arte popular, num dos territórios do nosso país mais marcados por esse tipo de manifestações tradicionais, do qual constitui uma das mais claras marcas de identidade.
Não se compreende que a Câmara Municipal de Évora e a Entidade Regional de Turísmo do Alentejo se arroguemo direito de liquidar friamente algo que não lhes pertence, um museu de arte popular que desde o 25 de Abril está à guarda do poder local, através da Assembleia Distrital de Évora.
Não se compreende que se pretenda transferir para outra utilização um espaço onde foi recentemente investido perto de um milhão de euros em obras de renovação e adaptação, financiadas com fundos públicos de origem nacional e comunitária, expressamente com vista à reabertura do antigo museu do artesanato.
Não se compreende que numa cidade como Évora, património da humanidade, com tantos edificios de qualidade, se fale em encerrarum Museu para no seu lugar instalar uma colecção privada de design.
Por isso entendemos dever propor a esta Assembleia que se pronuncie contra o encerramento do Museu do Artesanato Regional

Aprovado pela Assembleia Municipal de Vendas Novas
com 12 votos da CDU e 3 votos do PSD; 8 Votos contra do PS

Salvemos o “Museu do Artesanato”

O Protocolo acordado entre a Entidade Turismo do Alentejo (ETA), a Câmara Municipal de Évora (CME) e o coleccionador Paulo Parra (CPP), que visa a instalação da colecção de Design do último no antigo Museu do Artesanato, merece-nos quatro pequenos comentários.

1. O articulado já aprovado em reunião pública de Câmara por PS e PSD permite perceber, claramente, que a ETA descarta com este acordo as responsabilidades que herdou da Região de Turismo de Évora de gerir o Centro de Artes Tradicionais, estrutura de vocação distrital, na origem da qual esteve o Museu do Artesanato (criado em 1962), da responsabilidade da Assembleia Distrital.
Sem uma avaliação pública da gestão e da actividade do CAT, sem se perceber se a Assembleia Distrital está de acordo com esta solução, depois de ter encerrado a loja de apoio há um ano, agora a ETA dispõe-se a acabar de vez com esta estrutura cultural da cidade e da Região; não se percebe se esta decisão foi tomada por " interesse turístico" ou por incapacidade de viabilizar uma estrutura que recebeu ao absorver a RTE.

2. O executivo PS da CME, com o apoio do PSD, torna-se co-responsável pela extinção do CAT, estrutura cultural "identitária" da Região, no que parece ser uma tentativa de se redimir do completo falhanço da criação na cidade de um Centro de Design de Moda, tão propagandeado em campanha eleitoral. Acabar com o CAT parece não merecer reflexão profunda por parte deste executivo camarário.

3. Saúda-se a disponibilidade do coleccionador ao ceder "à cidade" a sua colecção, por dez anos, sem contrapartidas pessoais de qualquer renda. Por certo, como homem de cultura, não quererá ficar com o ónus de contribuir para o encerramento de uma "casa de cultura popular", quando encontra acolhimento para a sua colecção, sonho e realização de uma vida. Seguramente, está disponível para que, sem pressas, as duas entidades interessadas em expor a sua colecção encontrem uma solução melhor para a instalação condigna, tanto mais que o antigo Celeiro Comum não tem, à evidência, área suficiente para albergar todas as valências do futuro Museu de Design de Évora-Colecção Paulo Parra.

4. É de estranha legitimidade e de duvidosa legalidade a solução acordada pelos três parceiros para a administração e gestão do “Museu de Design de Évora”: as duas entidades de direito público (Turismo do Alentejo e Câmara) que acabam com o Centro de Artes Tradicionais, criam a suas expensas todas as condições físicas, logísticas e financeiras para que o objecto do acordo funcione, não tenham, no seu funcionamento nenhuma hipótese de controlar ou influenciar a sua gestão e administração, nas quais o coleccionador terá poder total e discricionário.

Dito isto, por certo se se reflectir nas consequências do articulado pouco consistente deste Protocolo aprovado pela Câmara, será ainda possível reformulá-lo de modo a acautelar eventuais dificuldades legais e a preservar o Centro de Artes Ttradicionais naquele local e instalar condignamente, noutro edifício, a Colecção de Design de Paulo Parra; esperamos que a cidade ganhe mais um pólo cultural sem ter que perder outro.

Manuel J.C. Branco*
In Semanário Registo, 13 Maio 2010
* Historiador