sexta-feira, 21 de maio de 2010

Não há duas sem três?

“É certo que os maus exemplos vêm de cima e já tivemos uma ministra a dizer naturalmente que os “museus nascem e morrem” sem que fosse elucidada sobre a lei internacional e nacional que os considera “instituições de carácter permanente”.
As instituições culturais não são os mastros dos santos populares, que se armam e desarmam nas alturas certas, e as cidades, além de gente e espaço, são memória e instituições.”

Dr. Joaquim Caetano (ex-director do Museu de Évora), in jornal Público, 9/5/2010



Com o início da actual gestão municipal (em 2001), entramos num vestíbulo onde era suposto sorrir, com visível alegria e entusiasmo, um conjunto de ideias inovadoras (e convívio democrático, aberto, não exclusivista, capaz de aceitar o espírito crítico)… Afinal de contas, fomos vendo paulatinamente que não havia mais do que um “cabide”
carregado de “capotes e chapéus” de toda a espécie, cada conjunto mais rasgado e roto que o seguinte…

Expliquemo-nos…

Primeiro, surgiu a “ideia-inovadora” (2004) da “Évora-Moda”
auto-promovida pela CME e outros “ilustres” parceiros da urbe. Isto é, a organização de um desfile de “moda” com figurantes mais ou menos vestidos, e a exibição de uma série de mediocridades nacionais da TV e capas de revistas “cor-de-rosa”… Esta “parada” estapafúrdia foi inaugurada face ao templo romano, pelo que a exorbitância de decibéis e outra poluição ambiente na acrópole da cidade, transformaram a iniciativa num gesto vandálico de agressividade patrimonial que “arrepiou”, com toda a razão, alguns agentes culturais e foi objecto na altura de acesa discussão crítica na Comissão Municipal de Arte, Arqueologia e Defesa do Património. O mesmo disparate se repetiu noutra edição da “Évora- Moda”, na Praça de Giraldo, aí massacrando a fonte henriquina e a igreja de Stº. Antão… Enfim, além do dispêndio financeiro e vários distúrbios culturais, esta iniciativa resultou numa espécie de “capote rasgado e chapéu roto”, retirados do tal “cabide”, colocando Évora alguns dias fora do recatado lugar de classificada pela UNESCO, para abancar na enxerga da foleirice nacional…

Depois, aconteceu a história caricata (2005) de um cavalheiro de nome Tristan Gillot (portador de passaporte belga) que, enquanto se apresentava como “príncipe” da Transilvânia (?), conseguia convencer a gestão municipal de que tinha capitais para erguer em Évora uma fábrica de pequenos aviões… e, nesse sentido, foi-lhe facultada a cedência de 2.688 m2 de terreno. Esta versão “alentejana” do “conto do vigário” acabou com o cavalheiro (referenciado pela INTERPOL como burlão internacional!) preso pelas autoridades, felizmente sem perigo de maior para os cofres da CME… E lá se foram, saídos do tal “cabide”, outro “capote rasgado” e mais um “chapéu roto”… Évora descia, então, da epopeia patrimonial para esse “crepúsculo” transtagano que é o anedotário alentejano…

Por fim, aparece-nos agora a ideia de “posicionar Évora como um centro cultural integrado nas grandes capitais mundiais do design”, segundo o texto do protocolo firmado entre as instituições Turismo do Alentejo, CME e um particular, por sinal Professor de design na Universidade de Évora e, no caso, proprietário da colecção de objectos a servir de acervo a um denominado “Museu do Design” industrial…

Curiosamente, “museu” a edificar no espaço do Museu do Artesanato/Centro de Artes Tradicionais, ignorando a existência deste mesmo espaço museológico e seu respectivo acervo, ainda que pálida imagem do que deveria ter sido um efectivo “museu do artesanato”
alentejano, etc..

Entretanto, temos de dar conta da nossa perplexidade face à hipocrisia reinante, pois ninguém se atreve a dizer que Évora não necessita de um “Museu de Design” para nada! De resto, é “coisa” perfeitamente descontextualizada aqui e agora (compreendemos o perigo que envolve fazer esta afirmação)!…

Mas pense o leitor com alguma lógica: - Se porventura um Prof. da UE beneficiando de relações íntimas, de privilégio, com a gestão municipal, por “mania” ou gosto científico coleccionasse borboletas exóticas, teríamos obrigatoriamente um “museu da borboleta”, “integrado nas grandes capitais mundiais” das colecções de borboletas?


A actual gestão municipal empenha-se (é um facto!) em encontrar o maior número possível de inovações culturais ou lúdicas que, para além do que já se sabe, coloquem Évora no centro das atenções do turismo nacional e internacional, bem como tem procurado afanosamente atrair investimentos e criar emprego para a população… Num e noutro caso, é digno de registo o esforço da gestão municipal, embora não faça mais do que a sua obrigação!

Todavia, acreditamos que deve ser penoso para a gestão municipal organizar desfiles de “moda” que resultaram em fiascos anunciados, acreditar no primeiro estrangeiro que lhe aparece a “vender a banha da cobra” e, por fim, embandeirar entusiasmada (vésperas dos santos populares), de “arco e balão”, no “paleio” de um tal “de professor” na Universidade local (que não deve ter pesadelos nem pesos na consciência, pelos estragos que provoca!), que lhe “vendeu” a ideia da cidade vir a ser um “centro internacional” do design… Começando logo a “abrir” caminho pisando aqui e ali, incompatibilizando-se com os agentes culturais da urbe, pessoas singulares e instituições locais, resvalando para o ridículo nacional! Tudo isto deve ser penoso de sofrer para a actual gestão municipal, mas é muito mais penoso para o preocupado e inquieto cidadão eborense…

Na verdade, não há duas sem três! Decididamente, esta gestão municipal teima em fazer do seu trabalho, na área cultural e lúdica, um “cabide”
de “capotes rasgados e chapéus rotos”!

Esta gestão municipal teima em nos desfigurar a cidade, porque se julga moderna, cosmopolita e de “excelência”, mas no meio de uma cidade de casas arruinadas, incapaz de eficácia na simples limpeza e restauro das calçadas urbanas, alterando-nos sem “autorização”
referendária praças e jardins, atreve-se todavia a pretender ser “centro cultural” não se sabe do quê, acabando numa prática patética de “troca-tintas” disto e daquilo, que desgosta e envergonha grande maioria de eborenses, incluindo parte do seu próprio eleitorado…

Como se diz (ou dizia) nas “passagens de nivel” ferroviárias, aventamos este aviso à actual gestão municipal – PARE, ESCUTE E OLHE!

Palminha da Silva in A defesa 19 Maio de 2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Interpelação ao Governo pelo Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda


Assunto: Encerramento do Centro de Artes Tradicionais / Antigo Museu do
Artesanato, concelho e distrito de Évora


Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República


O Centro de Artes Tradicionais / Antigo Museu do Artesanato constitui uma referência
etnográfica da região do Alentejo, espaço de divulgação de um invulgar legado da memória dos costumes e tradições alentejanas e da história de um povo.

Instalado desde 1962 no edifício do antigo Celeiro Comum, o Museu do Artesanato Regional foi criado com apoios diversos, nomeadamente da Fundação Calouste Gulbenkian. Até ao 25 de Abril, o Museu esteve na dependência da Junta Distrital de Évora, data a partir da qual passou para a Assembleia Distrital. Na sequência da transferência de responsabilidades executivas daquele órgão, em 1991, o Governo decidiu encerrar aquele Museu, facto que resultou na inacessibilidade do espaço e espólio, e consequente degradação, durante vários anos.

Em Setembro de 2007, o Museu assumiu a designação de Centro de Artes Tradicionais,
alegadamente por não satisfazer a totalidade dos requisitos definidos pelo Instituto Português de Museus para a classificação como Museu, não obstante os planos de museologia e museografia e a supervisão das equipas técnicas por parte de uma Comissão de Acompanhamento composta por representantes da Universidade de Évora, Comissão Interministerial para o Artesanato e Instituto Português de Museus.

No passado dia 25 de Março, a Câmara Municipal de Évora aprovou o protocolo a celebrar com a Entidade Turismo do Alentejo para a criação do Museu do Design em Évora – Colecção Paulo Parra, a instalar no actual Centro de Artes Tradicionais. Esta decisão ocorre ao arrepio do investimento público havido naquele espaço para a reabertura do Antigo Museu do Artesanato e sem que tenha sido apresentada solução alternativa para o seu acervo público.

Recorde-se que o edifício do Celeiro Comum esteve mais de dezasseis anos encerrado, tendo a Região de Turismo de Évora realizado um projecto de recuperação com vista à reabertura do Museu do Artesanato, cujas obras de renovação e adaptação ascenderam a aproximadamente um milhão de euros, verba obtida através de fundos públicos nacionais e comunitários.

Contendo mais de duas mil peças de grande valor histórico da memória colectiva do Alentejo,acervo documental, nomeadamente em suporte vídeo, distribuídas em duzentos espaços de exposição permanente, o Centro de Artes Tradicionais divulga os diferentes tipos de produção artesanal, enquadrando-os nos locais de origem, tendo ainda um inventário dos artesãos da região.

Desde a sua reabertura foram realizadas diversas mostras e espaços-oficina, expostas
colecções municipais e privadas, dando a conhecer a arte popular e diversas manifestações tradicionais, reforçando e interpretando a identidade alentejana e divulgando as potencialidades turísticas da região. As diversas iniciativas têm sido promovidas pela Turismo do Alentejo, pelo que não se compreende a decisão de encerramento do Antigo Museu de Artesanato.

A Constituição da República Portuguesa, na sua alínea e) do artigo 9.º estabelece como tarefa fundamental do Estado «proteger e valorizar o património cultural do povo português», bem como «apoiar as iniciativas que estimulem a criação individual e colectiva, nas suas múltiplas formas e expressões, e uma maior circulação das obras e dos bens culturais de qualidade» e «promover a salvaguarda e a valorização do património cultural» (respectivamente alíneas b) e c) do ponto 2 do artigo 78º).

Interpelação ao Ministério da Cultura


1. Tem o Governo conhecimento da intenção da Câmara Municipal de Évora e do Turismo de Portugal em proceder ao encerramento do Centro de Artes Tradicionais /Antigo Museu do Artesanato?

2. Considera o Governo aceitável a criação de um novo museu nas instalações do Centro de Artes Tradicionais e em sua substituição?

3. Entende o Governo que foram analisadas todas as soluções técnicas necessárias e que fundamentem a decisão de encerramento do Antigo Museu do Artesanato?

4. Tem o Governo conhecimento do projecto museológico previsto para o designado Museu
do Design em Évora – Colecção Paulo Parra?

5. Que medidas pretende o Governo levar a cabo para a protecção do espólio do Centro de Artes Tradicionais?

6. Que planos prevê o Governo desenvolver para assegurar a exposição pública do acervo do Centro de Artes Tradicionais, bem como proceder à sua divulgação?

7. Entende o Governo que a Turismo do Alentejo tem efectuado a melhor gestão e divulgação do Antigo Museu de Artes Tradicionais?



Interpelação ao Ministério da Economia, da Inovação e do Desenvolvimento


1. Tem o Governo conhecimento da intenção da Câmara Municipal de Évora e do Turismo de Portugal em proceder ao encerramento do Centro de Artes Tradicionais /Antigo Museu do Artesanato?

2. Considera o Governo aceitável a criação de um novo museu nas instalações do Centro de Artes Tradicionais e em sua substituição?

3. Entende o Governo que foram analisadas todas as soluções técnicas necessárias e que fundamentem a decisão de encerramento do Antigo Museu do Artesanato?

4. Em que estudos se fundamenta a Turismo do Alentejo para classificar a criação do Museu do Design em Évora – Colecção Paulo Parra como pólo de atracção turística e elemento catalisador para a fixação de novas populações na região?

5. Entende o Governo que a Turismo do Alentejo tem efectuado a melhor gestão e divulgação do Antigo Museu de Artes Tradicionais?

Requerimento À Câmara Municipal de Évora

Atendendo ao exposto, e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda vem por este meio requerer à Câmara Municipal de Évora cópia dos estudos em que se fundamentou para a substituição do Centro de Artes Tradicionais /Antigo Museu do Artesanato pela criação do Museu do Design em Évora – Colecção Paulo Parra, bem como cópia do Protocolo tripartido entre a edilidade eborense, a Entidade Turismo do Alentejo e Paulo Parra, aprovado em reunião de Câmara no passado mês de Março.

Palácio de São Bento, 20 de Maio de 2010.
A Deputada
Catarina Martins

Interpelação do Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda



segunda-feira, 17 de maio de 2010

MATRIZ CULTURAL ALENTEJANA-A ARTE POPULAR COMO MARCA IDENTITÁRIA DA NOSSA CULTURA

O caso do protocolo entre Câmara de Évora, Turismo do Alentejo e Colecionador Paulo Parra

I – Vivemos numa época em que o fenómeno irreversível da globalização, sob todos os seus múltiplos aspectos, virtudes e pecados, apela aos cidadãos mais conscientes que reflictam sobre as suas raízes como seres reais deste universo, ao mesmo tempo tão igual e tão diferente nos seus valores, nos seus princípios, nas suas crenças, nas suas línguas, na sua forma de estar e sentir, nas suas culturas. Talvez nunca como agora se sentiu tanto a necessidade de as comunidades, principalmente as regionais e locais, afirmarem, defenderem, promoverem e divulgarem as marcas identitárias que as distinguem como comunidades diferentes de outras, nem melhores, nem piores, mas, simplesmente, diferentes. De entre essas especificidades e diferenças, a mais importante e distintiva é a sua matriz cultural, que se afirma nas manifestações materiais e imateriais que, de geração em geração, vão sendo transmitidas. É todo um património de vivências e experiências feito que, não sendo de ninguém em particular, a todos pertence e a todos incumbe defender e dar a conhecer. Tal património é, amiúde, mal compreendido e menosprezado pelos iluminados defensores de que cultura é só a erudita. É um património vasto e diversificado que vai desde a língua, as festas, os contos, a música, as relações sociais, a gastronomia, a arte popular e um sem número de outras marcas.
Nas últimas três décadas, instituições públicas como os municípios e freguesias, ou privadas, como associações culturais, irmandades, grupos de amigos, confrarias, etc., têm testemunhado, por palavras e por actos, a importância da salvaguarda e da divulgação das expressões da nossa cultura popular, editando ou subsidiando livros, organizando mostras, criando “museus” e núcleos museológicos, promovendo concursos gastronómicos, recreações históricas e todo um manancial de realizações que têm em comum atingir aqueles objectivos. Subsidiariamente, tais acções constituem igualmente uma mais valia para um tecido económico muito débil, atraindo visitantes e dinamizando algumas micro e pequenas empresas. Igualmente importante é a perspectiva social, uma vez que se dignifica e reconhece o valor de muitas tarefas e profissões.
O artesão não é apenas um artífice mas também um artista. Um artista que concebe, que desenha, que, face à necessidade de atingir uma qualquer funcionalidade, lhe é capaz de dar resposta, criando um objecto ao qual confere um sentido prático e, igualmente, um sentido estético. É no artesão que se conjugam as capacidades artísticas e manufactureiras. Nele se concentram o engenho, a destreza e a experiência. Esta é-lhe dada por séculos de saber acumulado, ao qual ele acrescenta a sua própria criatividade. Mas mais, para além das respostas às necessidades do quotidiano, o artesão cria pelo puro prazer que lhe dá o acto de criar. Os materiais com que trabalha são simples e disponíveis no seu meio envolvente. As obras que produz são maioritariamente anónimas se bem que, muitas, identificáveis pelas suas características particulares.
Desde sempre, o artesanato e a arte popular têm suscitado o interesse (e, em muitas ocasiões, a protecção) dos poderes públicos. Politicas levadas a cabo nas áreas do trabalho e do emprego pretenderam defendê-lo, dignificá-lo e dar-lhe um sentido mais vincadamente económico e social. Nalguns casos, criaram-se estruturas estatais específicas para o seu enquadramento e acompanhamento. Promoveram-se exposições, editaram-se livros, catálogos e, instituições de prestígio como a Fundação Calouste Gulbenkian, apoiaram e fomentaram o escoamento da produção artesanal (AIP/FIL). A produção artesanal está presente um pouco por todo o mundo nas Casas de Portugal, em vários países onde a diáspora portuguesa chegou. Uma grande exposição do artesanato alentejano esteve presente, vários meses, no ECTARC- Centro Europeu das Culturas Tradicionais Regionais, tendo, posteriormente, sido mostrada em Londres e em França.
É, do meu ponto de vista, absolutamente inquestionável a importância do artesanato como expressão de arte popular na matriz cultural do Alentejo. Também julgo que, numa visão mais economicista, a arte popular/artesanato é igualmente um produto turístico que, associado com outros – gastronomia e vinhos, produtos alimentares de qualidade, paisagens, património arquitectónico – contribui para potenciar o grau de atractividade de uma região. Os visitantes procuram, cada vez mais, aquilo que é diferente, específico e próprio da região ou local e que só aí o podem encontrar com autenticidade e no enquadramento global das suas interligações.
Estas considerações pareceram-me necessárias para situar o caso particular do artesanato na sua expressão regional e para pôr em evidência a sua importância, quer como marca cultural, quer como actividade económica e socialmente relevante.

II – O interesse em dispor de uma mostra da arte popular alentejana a título permanente, em instalações dignas e apropriadas, remonta a finais da década de 50 quando surgiu a ideia de criar um núcleo etnográfico no Museu de Évora. Por razões que não aprofundei, tal ideia foi abandonada a favor da criação do Museu do Artesanato Regional do Distrito de Évora, a cargo e sob a tutela da antiga Junta Distrital, o qual foi inaugurado em 1962. Com a queda do regime em 1974 e a criação das novas estruturas do poder local, o Museu, desde o início alojado no edifício do antigo celeiro comum, passou, em 1991, depois de um atribulado e demorado processo de devolução, para a tutela da Assembleia Distrital de Évora, à qual pertence o acervo, sendo esta igualmente responsável pela sua guarda e gestão. A Assembleia Distrital, procurando um parceiro que assegurasse, de forma estável, a gestão e mostra daquele património, encontrou na então Região de Turismo de Évora, o interesse e a disponibilidade para o fazer, tendo essa parceria sido devidamente formalizada. Para criar as condições necessárias à guarda e exposição das peças e à sua gestão global, nomeadamente nos âmbitos da museografia, da conservação e da segurança, tornava-se necessário reabilitar e adaptar o edifício, tendo-se recorrido ao financiamento com apoios comunitários, no âmbito do III QCA. Tal projecto foi aprovado e totalmente executado. Finalmente, em 2007, o antigo Museu do Artesanato, redenominado Centro de Artes Tradicionais, abriu à fruição do público, nas condições que todos podemos apreciar e que, a meu ver, são excelentes. Às peças do próprio acervo do Museu juntaram-se outras, de coleccionadores particulares, que as cederam por acordo protocolar firmado com a Região de Turismo de Évora.
Simplificadamente, é este o enquadramento e o percurso do actual Centro de Artes Tradicionais – ex-Museu do Artesanato.

III – A reestruturação institucional do sector turístico em Portugal levou à extinção das Regiões de Turismo e à criação das Entidades de Turismo tendo, para o Alentejo, sido criada a Entidade de Turismo do Alentejo (TA). No que se refere à estrutura da Assembleia Distrital não tenho conhecimento de qualquer modificação, com excepção da sua composição política. É hábito corrente que as instituições “herdeiras” respeitem e assumam os compromissos firmados pelas que suas antecessoras, salvo circunstâncias muito ponderosas e excepcionais.
Foi pois com surpresa que, através da comunicação social e de informação disponível na internet, tomei conhecimento da aprovação, pela Câmara Municipal de Évora (CME), de um protocolo em que esta, a Entidade de Turismo do Alentejo (TA) e o coleccionador Paulo Parra se propõem criar o Museu de Design de Évora, no Centro de Artes Tradicionais. Posteriormente, e porque a notícia me chocou e me preocupou como cidadão, procurei ter acesso ao texto do protocolo. Tendo-o conseguido, à minha preocupação juntou-se o meu espanto e a minha indignação. É que o protocolo pretende alterar profundamente a filosofia, o conteúdo e o espaço do actual CAT e criar, com outro âmbito, outra filosofia e outros intervenientes, uma nova estrutura dentro daquela, num hibridismo promíscuo, no qual não se vislumbra nenhuma vantagem para qualquer das duas instituições. Como o protocolo não tem uma só palavra sobre o CAT, o seu acervo, a sua gestão, a sua dependência e funcionamento, todas as hipóteses de interpretação são possíveis, mesmo a sua extinção pura e simples. Não me dispensando de, numa análise mais detalhada, apontar objectivamente aquilo que, do meu ponto de vista, são os seus erros e incongruências, deixo, por agora, tão somente, algumas notas que essa análise me mereceu.
a) Tem um enquadramento legislativo inadequado;
b) Está recheado de contradições e falta de clareza;
c) É pretencioso e mal fundamentado nos seus objectivos;
d) É confuso nos seus considerandos;
e) Carece de legitimidade institucional e ética relativamente às responsabilidades assumidas pelas instituições que o assinam;
f) São desproporcionadas as condições oferecidas face aos benefícios postos à disposição;
g) Algumas pretensões são inexequíveis no espaço físico em causa;
h) Não há qualquer informação quantificada sobre os custos de implementação e de funcionamento;
i) No texto, há referência a documentos e a dados que depois não são explicitados;
j) Há disposições constantes de cláusulas, as quais não se enquadram no seu título;
k) Há cláusulas absolutamente inaceitáveis e outras contraditórias;
l) Há aspectos regulamentares e de compromissos relacionados com a aprovação do projecto, objecto de apoio comunitário, que não foram tidos em conta.

Para finalizar, entendo deixar claro o seguinte:
- Não sou contra a instalação, em Évora, de um Museu do Design, com base numa colecção privada, reconhecida como de qualidade, nos termos de um acordo firmado por quem tenha legitimidade para o fazer e no âmbito de um protocolo equilibrado entre os direitos e obrigações das várias partes;
- Entendo que tal instalação, para a qual há, certamente, alternativas de espaço (lembro as instalações da Palmeira, onde esteve para ser instalado o MACE – Museu de Arte Contemporânea de Évora) não deverá prejudicar nem colidir com os objectivos, gestão, funcionamento e missões de protecção, salvaguarda e divulgação do património de arte popular/artesanato que são propriedade da Assembleia Distrital e que estiveram na origem da criação do CAT- ex-Museu do Artesanato de Évora;
- Acho essencial que seja feita uma avaliação interna e externa do funcionamento do CAT, desde a sua criação, com a elaboração de um relatório que proponha eventuais medidas para melhorar o cumprimento dos seus objectivos e missões;
- Julgo também importante que as entidades envolvidas clarifiquem, junto dos cidadãos, as suas posições neste assunto e que, com ponderação, bom senso e respeito pela arte popular como marca identitária da matriz cultural alentejana, suspendam a assinatura do protocolo e reavaliem o seu conteúdo.

A.J. Carmelo Aires in Diário do Sul, 17 Maio 2010
Destaques nossos

Há Museus que se recusam a morrer!





Criado no Estado Novo, mal-amado quase desde o início, pior amado depois do 25 de Abril, o Museu de Arte Popular fechou, esteve para acabar e transformar-se no Museu da Língua. Afinal, voltou como Arte Popular. Esta terça-feira abre as portas por um dia para mostrar porque é valeu a pena ter sobrevivido.
(Daniel Rocha)

Há quatro anos, estávamos nesta sala a assistir ao fim do Museu de Arte Popular (MAP). A então ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, chamou os jornalistas e comunicou-lhes que o espaço, que se encontrava encerrado, iria ser transformado no novo Museu do Mar da Língua.

Havia já um projecto de arquitectura que previa que as pinturas murais fossem emparedadas - quem quisesse vê-las teria que se encolher e espreitar por detrás das paredes falsas. Dificilmente alguém acreditaria que aquele não era o fim do museu inaugurado em 1948 por António Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) e com que o Estado Novo quisera celebrar a cultura popular.

Mas, contra tudo e contra todos, o museu conseguiu expulsar a Língua e as paredes falsas, e reabre agora as portas para uma inauguração antecipada de um dia. Só será verdadeiramente inaugurado no último trimestre do ano, mas, amanhã, Dia dos Museus, o MAP vai mostrar-se de novo à cidade (entre as 10h e as 18h, com visitas guiadas, oficinas de artesanato e teatro).

Estamos de volta à mesma sala e o que se vê são técnicas da Fundação Ricardo Espírito Santo, no cimo de andaimes, a trabalhar no restauro das pinturas murais. Afastada a ameaça de emparedamento, os grandes painéis que decoram as paredes das várias salas são, num museu que ainda não recuperou a sua colecção (guardada temporariamente no Museu de Etnologia, mas pronta a regressar), o centro das atenções.

Há o painel de Lisboa, em tons de amarelo e azul, com peixeiras, manjericos, Santo António e fado (pintura de Paulo Ferreira, 1948), há, do mesmo autor, Terra Saloia, permanente romaria da Estremadura, Ribatejo, arte popular da bravura, e Nazaré, ex-voto do Mar Português. Tomás de Mello (Tom) e Manuel Lapa pintaram, logo na primeira sala, Minho, caixa de brinquedos de Portugal. As Beiras couberam a Carlos Botelho, o Alentejo a Estrela Faria, Trás-os-Montes a Eduardo Anahory, a Tom e a Manuel Lapa, e o Algarve novamente aos dois últimos.

"Como é que passou pela cabeça de alguém que era possível ocultar estas pinturas?", indigna-se o crítico de arte Alexandre Pomar, um dos activos defensores da continuação do MAP (juntamente com a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, a empresária Catarina Portas, e as artistas Joana Vasconcelos e Rosa Pomar, que chegaram a ir bordar para a porta do museu como protesto), e que no seu blogue (alexandrepomar.typepad.com) tem reunido uma enorme quantidade de informação sobre a história do museu.

"Não têm a componente política de serem artistas da oposição, mas não são menos valiosos por isso", defende, referindo-se à equipa de pintores modernistas reunida por Ferro. "São representantes de um compromisso dos pintores modernistas, uma modernidade pacificada. Este é o momento que melhor sobreviveu do trabalho dessa equipa que se destacou na Exposição do Mundo Português em 1940 [para a qual foi construído o primeiro pavilhão, o da Vida Popular, que viria a ser adaptado para o MAP pelo arquitecto Jorge Segurado] e em exposições internacionais", como a das Artes e Técnicas da Vida Moderna, em 1937, em Paris.

O capitão Henrique Galvão [que viria a celebrizar-se pelo afastamento do regime e o assalto ao paquete "Santa Maria"] "atacou ferozmente aqueles pintores, acusando-os de um cosmopolitanismo europeu quando a arte portuguesa devia desenvolver a sua relação com o Ultramar", explica Pomar.

"Esse apelo que Ferro faz à estética modernista em conjunto com a valorização da arte popular tem muito a ver com o seu contacto, logo desde os anos 20, com o movimento modernista, nomeadamente na Semana da Arte Moderna, em 1922 em São Paulo", sublinha Vera Marques Alves, antropóloga e autora da tese Camponeses Estetas no Estado Novo.

"Ele faz essa afirmação da identidade nacional através da reinvenção da estética popular já na [revista] Ilustração Portuguesa [início dos anos 20] e em 1921 fala na criação de bailados portugueses que recuperem o folclore, ideia que mais tarde leva à criação do Grupo de Bailado Verde Gaio." É uma alternativa à História dos grandes feitos e heróis, e "a estética contemporânea é uma forma de mostrar a arte popular como afirmação de uma nação plena de vitalidade no presente" e não a viver de glórias passadas.

O que é o "popular" hoje?

O MAP "é um projecto que vem de 1936, altura em que é completamente contemporâneo", explica Vera Alves. Mas sofre atrasos e em 1948, quando abre, "já está um bocadinho fora do tempo". É sobretudo um projecto de Ferro, diz a investigadora, e "nunca é muito acarinhado pelo regime". Sofre sempre de problemas estruturais, só tem electricidade em 1952, nos anos 60 corre o risco de fechar, mas o seu exterior serve de palco, no final dessa década, ao Mercado da Primavera, que, depois do 25 de Abril, se transforma no Mercado do Povo.

Mas, ao contrário dos outros museus do seu tempo, o MAP sobreviveu, congelado, praticamente esquecido. Chegou "intacto até hoje e é isso que o torna um caso único", defende o antropólogo João Leal. "É raro encontrar exemplos de museus que tenham sobrevivido tanto ligados ao seu projecto inicial."

O que se faz hoje de um museu assim? "É importante mostrá-lo como produto de um determinado discurso que teve a sua época e que pode ser desconstruído", diz João Leal. E abri-lo às expressões das culturas populares de hoje. "Durante muito tempo, elas eram valorizadas como testemunho de um mundo em extinção. Procurava-se o que era autêntico, legítimo, o menos tocado pelas culturas urbanas."

Hoje sabe-se que nunca nada esteve nesse estado puro e que as culturas populares foram sempre híbridas e inseridas em dinâmicas históricas. É possível "pôr em diálogo o popular e o erudito", assumir a hibridização do popular, afirma Leal, lembrando as queens (rainhas) das festas do Espírito Santo, nos Açores, uma influência dos emigrantes que foram para os Estados Unidos e o Canadá.

É a Andreia Galvão, directora do MAP e autora de uma tese sobre o arquitecto Segurado, que cabe a tarefa de "descongelar" o museu. Como? Primeiro, assumindo este museu-documento como uma cenografia que ele sempre foi (Segurado falava na arquitectura como cartaz, lembra Galvão), nesse conjunto "indissociável" entre arquitectura, pinturas murais (com as frases que as acompanham, que terão sido inventadas pela poeta Fernanda de Castro, mulher de Ferro) e a colecção.

Para já, o MAP, com uma equipa ainda pequena mas com um "corpo de voluntariado notável", será um "museu em obra", aberto a quem queira ver como vai nascendo - isso acontecerá no site que será apresentado amanhã, e no qual será possível marcar visitas guiadas ou fazer inscrições nos ateliers de Verão. O exterior, que está degradado, vai também ser recuperado.

Haverá núcleos de memórias. "Estamos a trabalhar com a Cinemateca, teremos filmes de época, sobre a Exposição do Mundo Português e não só, vamos recorrer a muitos documentos da época. Com o Museu do Traje estamos a estudar a possibilidade de trazer o núcleo ligado ao Grupo de Bailado do Verde Gaio", explica a directora. A colecção de fotografias do "povo português" em trajes tradicionais, que estava nas paredes do museu e foi guardada no CCB quando ele fechou, já está de volta e vai ser recuperada.

A colecção só regressará do Museu de Etnologia para a reabertura definitiva, mas para já será possível ver o mobiliário expositivo da época, de Jorge Segurado e Tom, que está a ser recuperado.

Haverá também núcleos interpretativos temáticos ligados aos diferentes espaços no museu. E, claro, a ligação à contemporaneidade: "Vamos explorar o conceito de contemporâneo na arte popular, trabalhar coisas como a reutilização de materiais orgânicos ou a investigação tecnológica no ramo das técnicas tradicionais." O MAP será ainda "uma embaixada do país em Lisboa" aberto às comunidades "para mostrarem o melhor que tenham, da gastronomia às festas".

Só muito poucos acreditaram que seria possível. Mas amanhã o MAP vai provar que há museus que se recusam a morrer.


17.05.2010 - 11:55 Por Alexandra Prado Coelho in Publico 17 Maio 2010

Museu de Arte Popular reabre a 18 de Maio




Mau grado as "sensibilidades culturais" dos responsáveis politicos desta nossa provincia um exemplo claro do que nos devia servir de guia neste caso do Museu de Artesanato de Évora. Nas palavras da Directora do Museu de Arte Popular: “Queremos estabelecer pontes entre o passado e a contemporaneidade. Este museu foi sempre o cerne de uma dicotomia entre a tradição e a modernidade”, observou a responsável, comentando que actualmente “há uma atenção especial para o ‘folk’, o popular”. Um artigo do Público muito oportuno que poderá mostrar aos nossos responsáveis politicos locais o que é realmente importante.

"O Museu de Arte Popular, em Lisboa, vai reabrir para visitas guiadas e actividades pedagógicas no dia 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus, revelou hoje à Lusa a directora do espaço, que se encontra encerrado e que esteve em risco de acabar.
O MAP estará aberto ao público para as comemorações do centenário da República (Enric Vives Rubio)

“A partir de dia 18 de Maio vamos fazer visitas guiadas e outras actividades de animação, como oficinas pedagógicas em parceria com outros museus”, disse Andreia Galvão no final de uma visita de deputados da Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura ao espaço situado em Belém.

Os deputados estiveram durante toda a manhã de hoje em visita ao Museu Nacional dos Coches, ao Museu Nacional de Arqueologia e ao Museu de Arte Popular, onde foram recebidos pelos respectivos directores para conhecer a situação destes espaços museológicos.

“As parcerias e o trabalho em rede são fundamentais nos dias de hoje”, sustentou a responsável, sem adiantar quais os museus que estarão envolvidos, mas, para já, a entidade vai trabalhar com as Regiões de Turismo do país.

Fundado em 1948, oito anos após a Exposição do Mundo Português, para a qual o edifício foi criado, o Museu de Arte Popular - com um acervo que ascende a cerca de 15 mil peças de actividades artesanais populares de várias áreas, desde cerâmica, brinquedos a cestaria - manteve-se encerrado desde 1999.

Ainda sob a tutela da então ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, esteve para ser transformado em Museu da Língua, mas o actual Ministério da Cultura, depois de uma grande movimento cívico a favor da preservação do simbólico espaço, decidiu manter a finalidade original de albergar a arte popular do país.

Andreia Galvão disse ainda que o programa do museu está actualmente em preparação, ao mesmo tempo que está a ser estudado e recuperado o enorme acervo que se encontra depositado no Museu Nacional de Etnologia.

“Queremos estabelecer pontes entre o passado e a contemporaneidade. Este museu foi sempre o cerne de uma dicotomia entre a tradição e a modernidade”, observou a responsável, comentando que actualmente “há uma atenção especial para o ‘folk’, o popular”.

A directora acredita que será possível fazer visitas guiadas e realizar actividades pedagógicas ao mesmo tempo que decorrem obras de remodelação do edifício, que, neste momento, está a receber um tratamento de restauros das pinturas das paredes interiores.

Ex-vice-directora do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico (IGESPAR), Andreia Galvão deverá reabrir o novo projecto museológico para o Museu em Outubro de 2010, no âmbito das comemorações do Centenário da República."



In Público 17 maio 2010