quinta-feira, 29 de julho de 2010

Afinal é só "resistencia à mudança"

"É natural...", nas palavras da vereadora da cultura Claudia Pereira "Todos temos algumas dificuldades e resistencia à mudança". Afinal muitos daqueles objectos de artesanato "estão perfeitamente disponiveis em lojas de artesanato".

Nas palavras de Ceia da Silva, presidente do Turismo do Alentejo, "Tivemos o grato previlégio de nos cruzarmos com dois icones do Design a nivel mundial: Paulo Parra e Inês Secca Ruivo" cuja "fantástica" exposição realizada em Évora o ano passado "teve mais de 6 mil visitantes".

Paulo Parra, por seu lado "rejeitou a ideia que a solução encontrada lhe seja um bom negocio" afirmando que muito do trabalho que realiza "não é pago".

No artigo não é referido o custo fixo que terá este espaço nem quando poderá chegar o novo eventual Museu privado à autosustentabilidade e, assim, à emancipação do dinheiro dos contribuintes.

Edição on-line:
In Semanário Registo de 29 Julho 2010

Desbloqueando...

A conferência de imprensa do passado dia 26, dada pela Câmara Municipal de Évora, pela Direcção de Turismo do Alentejo e pelo coleccionador Paulo Parra, pretendia ser esclarecedora. Pretendia com argumentos irrefutáveis encerrar de vez a polémica em torno do putativo Museu do Design e do ainda existente Centro de Artes Tradicionais.
Sob o lema “Da pedra lascada ao ipod” fez-se uma viagem pelas peripécias de todo este processo, apresentaram-se argumentos, nenhum deles novo, nenhum deles sustentado. Foi no fundo uma manifestação de intenções precedida de uma justificação colectiva para o desmembramento do moribundo Centro de Artes Tradicionais.
Foi dito que dado o actual estado das coisas, apenas dois caminhos se apresentam, ou o fecho puro e simples deste equipamento, ou então a sua reciclagem e integração no novel Museu.
As despesas são muitas e o rendimento inexistente, a oferta é decepcionante e pouco atractiva, há que inovar e essa inovação terá forçosamente de passar por outro modelo.
Não foi atribuída nenhuma responsabilidade a quem deixou que esta situação se arrastasse, não foi mencionada nenhuma tentativa séria para que o Centro de Artes Tradicionais retomasse o caminho da viabilidade.
Foi mencionado um plano de marketing para o museu do design; mencionado apenas, espera-se ansiosamente a sua divulgação.
“A não instalação do hipotético museu será uma perda irreparável para Évora e para o Alentejo,” foi afirmado pelo Dr. Ceia da Silva. Para além do manifesto exagero que tal afirmação comporta, interrogo-me se não será também o caso no que ao centro de artes tradicionais diz respeito?
Recuperou-se um edifício, um acervo, criaram-se condições únicas para levar por diante um projecto de reconhecidos méritos, para depois tudo se afundar numa apagada e vil tristeza, fruto da incompetência de quem tinha a obrigação de pugnar pelo sucesso desse projecto, como aliás se refere no parecer do Instituto Português de Museus. " A inexistência de um responsável bem como de qualquer pessoal técnico
compromete seriamente o desenvolvimento deste projecto" que considera o IPM
"é suportado por conceitos sólidos de patrimónios que embora materiais
radicam no território do imaterial que é o dos saberes e das artes, em
processo de esquecimento pelas sociedades modernas".
Esta é uma das múltiplas questões que deveriam ter tido resposta na dita conferência de imprensa e que não foram sequer afloradas. Como não o foram as opiniões emanadas pela Comissão Municipal de Arte e Arqueologia e também pela Delegação Regional da Cultura do Alentejo.
Tudo isso passa ao largo e o que conta é a luz verde do Ministério das Finanças através da Secretaria de Estado do Tesouro, que como se sabe é a responsável pela cultura neste país…
Quanto à Câmara de Évora, a argumentação utilizada pouco ou nada acrescenta, reafirma-se o investimento neste processo, as cautelas demonstradas na escolha do parceiro, o radioso futuro demográfico que a instalação da Colecção de Design proporcionará a esta exangue cidade, compara-se esta situação à que se viveu em Lisboa, aquando da instalação do Centro de Arte Moderna no espaço Gulbenkian. Um discurso que no fundo apenas mostra a profundidade dos estudos levados a cabo pelo pelouro da cultura da Autarquia, estudos seguros, de águas superficiais, para que o projecto não afunde, nem sufoquem os seus mentores.
O Professor Paulo Parra e a Doutora Inês Ruivo tentaram explicar que artesanato e design são em termos relativos a mesma coisa, que o projecto é uma bênção para os artesãos do distrito e do mundo, já que o museu integrará uma rede de instituições do mesmo cariz, realçaram as ligações profundas do mentor do museu ao Alentejo e aos artesãos alentejanos, (que não foram tidos nem achados na elaboração do projecto) Falaram de uma bienal a realizar, de um “site” a construir, de uma intima parceria com a Universidade de Évora, (que ainda não teve qualquer manifestação institucional) disseram ainda que os formandos do Curso por eles ministrado serão os futuros artesãos de Portugal, pois não fazem distinção entre design e artesanato, (quando feitos por processos artesanais) dando exemplos que não comento.
Por fim, mesmo no fim, foi revelada a intervenção a fazer no espaço. Implica obras, implica custos.
Quem paga?
Aqueles que se vêem compelidos a encerrar o Centro de Artes Tradicionais por não terem verba para o manter.
Sobre isto não digo nada, remeto para os inúmeros pareceres que os organizadores desta conferência de imprensa olimpicamente ignoraram. São eloquentes, falam por si.
Nada neste processo foi e é transparente; a ninguém que pudesse ter opinião contrária foi pedido o mínimo contributo.
Não se indagou sequer se existiriam outras entidades dispostas a assumir a gestão (dentro do mesmo espírito de parceria) do Centro de Artes Tradicionais. Resolveu-se por decreto divino que seria assim.
Porquê? Porque o debate é incómodo, porque dele poderiam surgir alternativas que inviabilizassem o arranjo, e isso para algumas mentes iluminadas, é um dos grandes inconvenientes da democracia, a prevalência da vontade popular!
Queixam-se dos enxovalhos sofridos sem perceberem o imenso enxovalho que estão a fazer à democracia.

Miguel Sampaio - In Diário do Sul 29 Julho 2010

Novo protocolo aprovado em reunião de Câmara

Voto do vereador do PSD, Antonio Dieb, viabiliza projecto.

Foi assim ontem 28 de julho de 2010, com agendamento no dia anterior e com um voto a fazer a diferença (maioria PS votou favoravelmente, demais oposição votou contra), que o novo protocolo entre a Câmara Municipal de Évora, o Turismo do Alentejo e o Colecionador Paulo Parra foi aprovado. Agora o anteriormente denominado em protocolo "Museu de Design Paulo Parra" passa a "Museu do Artesanato e do Design" e inclui, além da colecção particular do colecionador, o acervo do Centro de artes tradicionais que desaparece enquanto instituição. Câmara Municipal que arcará praticamente com todas as despesas deste projecto privado, desconhece ainda os seus custos e a maioria dos proprietários do acervo de artesanato (parte das peças expostas pertence a particulares ou intituições) nem sequer foi informada do facto.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Novo Protocolo vai a reunião de Câmara hoje 28 de Julho.

Agendamento efectuado ontem, no dia que antecedeu a reunião.

Foi ontem agendado novo ponto para a reunião de Câmara que ocorrerá hoje, quarta feira 28 de julho de 2010, onde será levado a votos o novo protocolo que traçará o destino final do Museu de artesanato de Évora.

RTP - PORTUGAL EM DIRECTO

RTP - PORTUGAL EM DIRECTO

Reportagem Museu de Artesanato versus Museu de Design
(entre o minuto 8,16 e o minuto 11,38)

Museu do Design e do Artesanato de Évora avança


Pareceres desfavoráveis

Primeiro Museu do Design e do Artesanato da Península Ibérica vai mesmo avançar em Évora, contra os pareceres desfavoráveis da Direcção Regional de Cultura, da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia e do Instituto dos Museus e da Conservação.
Contra estas opiniões, a Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo e a Câmara Municipal de Évora decidiram aceitar a proposta do coleccionador Paulo Parra para esta cidade receber o seu espólio e avançar para a criação deste novo espaço.

As contestações surgem do facto de mais de 3500 peças de design irem coabitar com outras tantas de artesanato que estão no Centro de Artes Tradicionais e que agora vai mudar de denominação.

No entender do presidente da ERT, Ceia da Silva, o novo museu irá abrir a partir de Outubro/Novembro, “sem se acabar com nada, sem mudar, mas melhorando e criando um upgrade para o artesanato”.

Ceia da Silva considera que esta foi a melhor solução encontrada, uma vez que “dará outra mais-valia ao artesanato que pode em conjugação com o design obter o reconhecimento por parte do Instituto Nacional dos Museus, sendo igualmente motivo de atracção turística. “É muito importante que possamos levar o nosso artesanato e os nossos artesãos a uma internacionalização, atrair para Évora muitos turistas”, frisou.

Esta ideia foi reiterada pela vereadora da autarquia, Cláudia Pereira que avançou ainda que o actual Centro de Artes Tradicionais estava a perder cada vez mais visitantes, não se justificando as despesas face às receitas auferidas.

“Além disso, aquele espaço não podia viver só com aqueles objectos porque muitos deles estão disponíveis em lojas de artesanato e, para mim, um museu tem que dar a quem o visita algo que nós não podemos ter”, considerou, acrescentando que o coleccionador Paulo Parra tem peças que cumprem bem esta função.

Com um espólio de mais de 3500 peças, o coleccionador confessou não entender a oposição a este projecto, sobretudo pelo facto de o design “estar a ter cada vez importância na sociedade”.

Paulo Parra reiterou, assim, a possibilidade de uma coexistência harmoniosa entre o artesanato e o design “porque este vê ancoradas as suas raízes no artesanato, daí esta união ser extremamente natural”. E deu exemplos: “Uma nave espacial é um produto muito artesanal, embora tenha grande tecnologia. É quase tudo montado à mão, as peças são feitas uma a uma, digamos que é um artesanato dos tempos contemporâneos. Mesmo assim a cortiça está lá, as cerâmicas também, portanto, é tudo uma questão de conceito”.

In Público 26.07.2010 - 20:37 Por Maria Antónia Zacarias

Paulo Parra leva as suas canetas, pedras lascadas, cochos e iPods para Évora


Paulo Parra resume a sua colecção de cerca de 2500 peças de design em jeito de subtítulo de livro: "Da pedra lascada ao iPod". Agora, a colecção torna-se acervo. Vai para o novo Museu do Design - colecção Paulo Parra, em Évora, que hoje é apresentado na cidade alentejana e que deve abrir portas no início de 2011.

Há ali, naquela colecção de um estudante universitário curioso tornado cognome de museu de design, um manancial de "primeiros": a primeira caneta de tinta permanente, uma Waterman de 1884, a primeira esferográfica, o primeiro walkman, os primeiros computadores Apple, os primeiros telemóveis, rádios e até um canivete suíço do século XIX. À mistura com os primeiros vidros e porcelanas Vista Alegre (1840), peças de Bordalo Pinheiro ou da britânica Wedgewood e tarros (baldes de cortiça), cochos (conchas de cortiça pastoris) e outros utensílios alentejanos. E, a par das tais pedras lascadas, o potencial para ultrapassar polémicas aliando artesanato a design. É tudo uma questão de técnica, conta-nos Paulo Parra.

"Não existe uma diferença entre o artesanato e o design", postula. "Há é tecnologias diferentes. O cocho ou uma porcelana da Vista Alegre são utilitários testemunhos de uma evolução lógica dos seres humanos", diz ao P2 o director do curso de Design da Universidade de Évora e responsável pelos doutoramentos de Design de Equipamento da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. O tema surge não só pela convivência de artefactos como as pedras lascadas do Megalítico, peças da comunidade religiosa Shaker norte-americana (muito conhecida pelo seu contributo ao nível do mobiliário) e a colecção de electrodomésticos do designer Peter Behrens, expoente do modernismo, para a AEG, mas porque o novo museu se vai situar nas instalações do actual Centro de Artes Tradicionais de Évora.

A decisão da localização do museu, aprovada em reunião pública de câmara (PS) em Abril, mereceu contestação dos defensores da preservação de um espaço que acolhe o espólio de artesanato da Entidade Regional de Turismo. O edifício, no centro de Évora e gerido pelo Turismo do Alentejo, vai agora acolher o museu de design, e Parra defende que a organização cronológica da exposição permanente do futuro museu vai permitir a coexistência dos dois espólios e das duas actividades. Aliás, já levou a cabo vários trabalhos com artesãos - é lembrar a Sela Portuguesa, no Pavilhão de Portugal na Expo Saragoça 2008. "Acredito que muito da sobrevivência do artesanato tradicional pode passar pela colaboração com o design, são precisas pontes para unir designers e artesãos", disse.

A ideia é também descentralizar: "O design está em Lisboa, mas tem de começar a aparecer noutros pontos do país. Esta é uma tentativa de criar um outro pólo", diz Paulo Parra, cuja colecção chegou a estar pensada para se juntar ao espólio de Francisco Capelo (hoje acervo do Museu do Design e da Moda - Mude) no Centro Cultural de Belém. "Esse casamento não se deu." O Museu do Design - colecção Paulo Parra quer criar parcerias com o Mude e está já em contacto com outros museus de design alemães e brasileiros, a pensar em internacionalização.

O processo de instalação em Évora começou há cerca de ano e meio, muito graças à ligação à Universidade de Évora, cujo público, juntamente com o da cidade, é o principal alvo do museu. Depois há os turistas, que ali encontram algo de contemporâneo em contraponto com a oferta histórica da cidade. Além das cerca de 2500 peças, Paulo Parra vai separar-se com alguma melancolia da sua biblioteca de design, arquitectura e arte, que dará ao museu mais condições para, no futuro, se candidatar a integrar a rede do Instituto dos Museus e da Conservação, garantindo a valência de formação e investigação. Haverá uma loja e um auditório, e estão programadas conferências em articulação com o curso de Design de Évora, cujos alunos, bem como os da FBAUL, poderão ter ali à venda alguns trabalhos de projecto com parcerias empresariais.


In Público 26.07.2010 - 08:43 Por Joana Amaral Cardoso