Desde o passado dia 26 de Novembro que a Comissão Coordenação da Região Alentejo (CCDRA) aparentemente não recebe correio electronico da Perpetuar Tradições associação de defesa do Artesanato do Alentejo.
Os membros desta associação já se viram obrigados a encaminhar correspondencia - relativa ao Centro de Artes Tradicionais, antigo Museu de Artesanato de Évora - pela tradicional via postal, registado e com aviso de recepção, pois todas as missivas sobre este assunto, dirigidas ao Presidente daquela entidade João de Deus Cabral Cordovil aparentemente nunca lhe chegavam, fossem para os endereços institucionais fossem para os pessoais do seu secretariado.
Relembramos que a CCDRA é a entidade que tem por obrigação regular e fiscalizar subsidios europeus utilizados no Alentejo, justamente como os que foram utilizados, há apenas dois anos, na recuperação do Centro de Artes Tradicionais, Antigo Museu de Artesanato de Évora, encerrado há 2 semanas para ser convertido em Museu de Design de um privado.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
O ARTESANATO, A MEMÓRIA E A FELICIDADE (3)
Por Francisco Martins Ramos
Como se sabe, o artesanato enriquece a oferta turística, mediatiza o contacto de culturas, cria postos de trabalho, ocupa os mais velhos, gera riqueza e alimenta a dinâmica da mudança, colocando em saudável confronto o passado e o presente.
Os artefactos são um produto que se inscreve naquilo que se entendeu denominar por turismo cultural, embora todo o turismo seja cultural. De facto, os produtos culturais e as atracções desempenham um importante papel turístico a vários níveis, desde a divulgação global da cultura, às acções que enfatizam as identidades locais (Mbaiwa 2004). Na realidade, o conceito totalizante de cultura compreende o que as pessoas sabem e pensam (conhecimentos culturais), como as pessoas se comportam e reagem (comportamentos culturais) e o que as pessoas fazem e manufacturam (artefactos culturais).
O turismo cultural é uma modalidade que se centra, justamente, nos recursos culturais. Ora, os recursos culturais não se limitam aos monumentos, às comunidades e sítios, ao património construído ou aos mitos e lendas. Dizem respeito também aos estilos de vida, às práticas habituais e às actividades passadas e às recentes que sobreviveram e se adaptaram.
O “empowerment” dos produtores de artesanato através da salvaguarda das técnicas tradicionais, da adaptação de técnicas inovadoras (principalmente as que aliviem o esforço físico dos artesão), do empreendedorismo e da utilização de práticas de boa gestão são mecanismos que contribuem seguramente para o sucesso económico do turismo cultural. Trata-se efectivamente de, pela via da cultura, chegarmos à economia.
Aquando da inauguração do Centro de Artes Tradicionais - Museu do Artesanato, em Évora, afirmei que tal projecto demonstrava a riqueza caleidoscópica do artesanato alentejano. Iniciativa de qualidade total, aquele momento marcou um episódio histórico para o enriquecimento da oferta turística eborense e alentejana. A batalha sinuosa que foi necessário travar para a concretização daquela obra só nos pode dar satisfação porque foi uma batalha vencida.
Espaço cultural por excelência, aquele museu corporizou o casamento entre a tradição e a inovação tecnológica, numa afirmação contemporâneo dos mais avançados instrumentos museológicos. O Museu do Artesanato de Évora é, como foi dito na sua inauguração, “a devolução à cidade e ao Alentejo” duma parte do seu património.
Invadir o território de um museu temático existente, descaracterizar uma realidade coerente na sua afirmação sócio-cultural, histórica e identitária, amputar um espaço artesanal por interesses de conveniência, misturar traços culturais com afirmações de modernidades de natureza diversa e antagónica é um crime de lesa-cultura, uma afronta ao legado que nos foi deixado e uma armadilha envenenada à idiossincrasia alentejana. Apetece recordar Sophia: “Eles sabem muito e não percebem nada”.
Parafraseando mais uma vez Sommier (1984), posso concluir afirmando que o artesanato é como a felicidade - só no momento em que desaparece é que damos conta do seu valor. Para aquele artesanato que não resiste ao progresso da sociedade, nada melhor do que mantê-lo preservado, protegido e higienizado pela dignidade museológica de origem.
Bibliografia
MBAIWA, Joseph
2004 “Prospects of Basket Production in Promoting Sustainable
Rural Liveliwoods in the Okavango Delta, Botswana”, International Journal of Tourism Research 6: 221-235
RAMOS, Francisco Martins
2007 Breviário Alentejano, Vale de Cambra: Caleidoscópio
SOMMIER, Gilbert
1984 Presente y Futuro de las Artesanías en la Sociedad
Industrial, Madrid: Ministerio de Industria y Energia
Como se sabe, o artesanato enriquece a oferta turística, mediatiza o contacto de culturas, cria postos de trabalho, ocupa os mais velhos, gera riqueza e alimenta a dinâmica da mudança, colocando em saudável confronto o passado e o presente.
Os artefactos são um produto que se inscreve naquilo que se entendeu denominar por turismo cultural, embora todo o turismo seja cultural. De facto, os produtos culturais e as atracções desempenham um importante papel turístico a vários níveis, desde a divulgação global da cultura, às acções que enfatizam as identidades locais (Mbaiwa 2004). Na realidade, o conceito totalizante de cultura compreende o que as pessoas sabem e pensam (conhecimentos culturais), como as pessoas se comportam e reagem (comportamentos culturais) e o que as pessoas fazem e manufacturam (artefactos culturais).
O turismo cultural é uma modalidade que se centra, justamente, nos recursos culturais. Ora, os recursos culturais não se limitam aos monumentos, às comunidades e sítios, ao património construído ou aos mitos e lendas. Dizem respeito também aos estilos de vida, às práticas habituais e às actividades passadas e às recentes que sobreviveram e se adaptaram.
O “empowerment” dos produtores de artesanato através da salvaguarda das técnicas tradicionais, da adaptação de técnicas inovadoras (principalmente as que aliviem o esforço físico dos artesão), do empreendedorismo e da utilização de práticas de boa gestão são mecanismos que contribuem seguramente para o sucesso económico do turismo cultural. Trata-se efectivamente de, pela via da cultura, chegarmos à economia.
Aquando da inauguração do Centro de Artes Tradicionais - Museu do Artesanato, em Évora, afirmei que tal projecto demonstrava a riqueza caleidoscópica do artesanato alentejano. Iniciativa de qualidade total, aquele momento marcou um episódio histórico para o enriquecimento da oferta turística eborense e alentejana. A batalha sinuosa que foi necessário travar para a concretização daquela obra só nos pode dar satisfação porque foi uma batalha vencida.
Espaço cultural por excelência, aquele museu corporizou o casamento entre a tradição e a inovação tecnológica, numa afirmação contemporâneo dos mais avançados instrumentos museológicos. O Museu do Artesanato de Évora é, como foi dito na sua inauguração, “a devolução à cidade e ao Alentejo” duma parte do seu património.
Invadir o território de um museu temático existente, descaracterizar uma realidade coerente na sua afirmação sócio-cultural, histórica e identitária, amputar um espaço artesanal por interesses de conveniência, misturar traços culturais com afirmações de modernidades de natureza diversa e antagónica é um crime de lesa-cultura, uma afronta ao legado que nos foi deixado e uma armadilha envenenada à idiossincrasia alentejana. Apetece recordar Sophia: “Eles sabem muito e não percebem nada”.
Parafraseando mais uma vez Sommier (1984), posso concluir afirmando que o artesanato é como a felicidade - só no momento em que desaparece é que damos conta do seu valor. Para aquele artesanato que não resiste ao progresso da sociedade, nada melhor do que mantê-lo preservado, protegido e higienizado pela dignidade museológica de origem.
Bibliografia
MBAIWA, Joseph
2004 “Prospects of Basket Production in Promoting Sustainable
Rural Liveliwoods in the Okavango Delta, Botswana”, International Journal of Tourism Research 6: 221-235
RAMOS, Francisco Martins
2007 Breviário Alentejano, Vale de Cambra: Caleidoscópio
SOMMIER, Gilbert
1984 Presente y Futuro de las Artesanías en la Sociedad
Industrial, Madrid: Ministerio de Industria y Energia
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O ARTESANATO, A MEMÓRIA E A FELICIDADE (2)
Por Francisco Martins Ramos
O artesão alentejano (que é o que nos interessa, de momento) afirma-se embrionariamente e potencia-se no longo período medieval e tem a sua época de ouro a partir do Renascimento. Um pouco como aconteceu por toda a Europa. Os trabalhos artesanais e de manufactura doméstica, actividade acessória da agricultura, que em si mesma constitui a base do processo, condicionam o modo de produção em que assenta, quer na Antiguidade, quer na Idade Média europeia, a economia natural.
Assim, a nível económico, a actividade artesanal permitia e permite a reunião de factores de produção num mesmo agente económico independente e fomentava a pluriactividade; ao nível técnico destaca-se a possibilidade de execução pelo mesmo indivíduo de operações que integram a totalidade ou a maioria do processo produtivo; a nível artístico permite a expressão de sentimentos estéticos, de origem essencialmente popular, mas também erudita; a nível intelectual, o artefacto consubstancia e reflecte o predomínio de factores psicológicos sobre os factores mecânicos, no processo da manufactura e produção.
A situação actual da actividade artesanal é diversa: de modo geral podemos afirmar que os ofícios artesanais colaboradores ou complementares da indústria (metais, electricidade, mecânica), não enfrentarão tão cedo problemas de sobrevivência; outras tarefas artesanais encontram-se numa posição intermédia, dependendo da oscilação do poder de compra e do nível de vida das populações. Encontram-se nesta situação os artífices da área da alimentação, dos serviços, da construção e os ofícios que dependem das modas e até de posicionamentos ecológicos (os chamados neo-artesãos de extracção urbana, mas de horizontes rurais). Finalmente, existem actividades artesanais que vão fatalmente desaparecer ou que já se extinguiram silenciosamente.
É neste sentido que a musealização dos artefactos desaparecidos ou em vias de extinção desempenha um papel crucial na salvaguarda da memória colectiva, na transmissão dos saberes tradicionais às novas gerações e na compreensão do passado, recente ou distante. Os designados Museus Rurais, Museus do Artesanato, Museus Agrícolas, Museus de Aldeia, Museus Etnográficos, etc., aí estão a atestar e a legitimar as raízes locais e regionais, os estilos de vida dos quotidianos da autenticidade vivida, dolorosamente marcada, nuns casos, e eleita como referência identitária, noutros.
Entretanto, é bom não esquecer que muitas das práticas artesanais são caracterizadas por grande fragilidade e vulnerabilidade; pertencem a sectores marginais da vida económica; enfrentam dificuldades na obtenção de créditos; possuem dimensões reduzidas e, last but not the least, as necessidades às quais correspondiam muitos ofícios artesanais desapareceram ou definham. Os exemplos proliferam, nomeadamente os ligados ao sector primário e ao mundo da ruralidade: cardadores, ferreiros e ferradores, alfaiates e modistas, latoeiros, padeiras e forneiros, almocreves, cesteiras, taberneiros, amola-tesouras, carreiros, bordadeiras, sapateiros, abegões, funileiros, chocalheiros, cadeireiros, etc.
É certo que a procura das raízes artesanais e as inúmeras iniciativas em acção procuram camuflar suavemente situações de desemprego. Mas ao mesmo tempo, e acima de tudo, a solução artesanal é, justamente, uma procura do tempo perdido e um regresso às origens. Num mundo de mudanças tecnológicas crescentes, num universo de velocidades, stress e ritmo acelerado, o recurso à obra artesanal é o retomo do homem às formas mais puras e naturais da estética popular, é o encantamento das coisas simples e utilitárias, é o prazer da ligação do artista com o produto do seu trabalho, que se pode sintetizar na expressão "o artefacto é obra do artífice". Num mundo de mudanças também sociais, o recurso à obra artesanal é o retorno do Homem às formas mais singelas de arte, é a procura da autenticidade perdida, é a aventura da descoberta sentimental da cumplicidade do artesão com o produto do seu trabalho. A globalização, a que gera uniformidades, provoca certamente a homogeneidade cultural que desejamos evitar, salvaguardando aquilo com que nos identificamos há gerações.
Bibliografia
RAMOS, Francisco Martins
2007 Breviário Alentejano, Vale de Cambra: Caleidoscópio
SOMMIER, Gilbert
1984 Presente y Futuro de las Artesanías en la Sociedad Industrial, Madrid:
Ministerio de Industria y Energia
O artesão alentejano (que é o que nos interessa, de momento) afirma-se embrionariamente e potencia-se no longo período medieval e tem a sua época de ouro a partir do Renascimento. Um pouco como aconteceu por toda a Europa. Os trabalhos artesanais e de manufactura doméstica, actividade acessória da agricultura, que em si mesma constitui a base do processo, condicionam o modo de produção em que assenta, quer na Antiguidade, quer na Idade Média europeia, a economia natural.
Assim, a nível económico, a actividade artesanal permitia e permite a reunião de factores de produção num mesmo agente económico independente e fomentava a pluriactividade; ao nível técnico destaca-se a possibilidade de execução pelo mesmo indivíduo de operações que integram a totalidade ou a maioria do processo produtivo; a nível artístico permite a expressão de sentimentos estéticos, de origem essencialmente popular, mas também erudita; a nível intelectual, o artefacto consubstancia e reflecte o predomínio de factores psicológicos sobre os factores mecânicos, no processo da manufactura e produção.
A situação actual da actividade artesanal é diversa: de modo geral podemos afirmar que os ofícios artesanais colaboradores ou complementares da indústria (metais, electricidade, mecânica), não enfrentarão tão cedo problemas de sobrevivência; outras tarefas artesanais encontram-se numa posição intermédia, dependendo da oscilação do poder de compra e do nível de vida das populações. Encontram-se nesta situação os artífices da área da alimentação, dos serviços, da construção e os ofícios que dependem das modas e até de posicionamentos ecológicos (os chamados neo-artesãos de extracção urbana, mas de horizontes rurais). Finalmente, existem actividades artesanais que vão fatalmente desaparecer ou que já se extinguiram silenciosamente.
É neste sentido que a musealização dos artefactos desaparecidos ou em vias de extinção desempenha um papel crucial na salvaguarda da memória colectiva, na transmissão dos saberes tradicionais às novas gerações e na compreensão do passado, recente ou distante. Os designados Museus Rurais, Museus do Artesanato, Museus Agrícolas, Museus de Aldeia, Museus Etnográficos, etc., aí estão a atestar e a legitimar as raízes locais e regionais, os estilos de vida dos quotidianos da autenticidade vivida, dolorosamente marcada, nuns casos, e eleita como referência identitária, noutros.
Entretanto, é bom não esquecer que muitas das práticas artesanais são caracterizadas por grande fragilidade e vulnerabilidade; pertencem a sectores marginais da vida económica; enfrentam dificuldades na obtenção de créditos; possuem dimensões reduzidas e, last but not the least, as necessidades às quais correspondiam muitos ofícios artesanais desapareceram ou definham. Os exemplos proliferam, nomeadamente os ligados ao sector primário e ao mundo da ruralidade: cardadores, ferreiros e ferradores, alfaiates e modistas, latoeiros, padeiras e forneiros, almocreves, cesteiras, taberneiros, amola-tesouras, carreiros, bordadeiras, sapateiros, abegões, funileiros, chocalheiros, cadeireiros, etc.
É certo que a procura das raízes artesanais e as inúmeras iniciativas em acção procuram camuflar suavemente situações de desemprego. Mas ao mesmo tempo, e acima de tudo, a solução artesanal é, justamente, uma procura do tempo perdido e um regresso às origens. Num mundo de mudanças tecnológicas crescentes, num universo de velocidades, stress e ritmo acelerado, o recurso à obra artesanal é o retomo do homem às formas mais puras e naturais da estética popular, é o encantamento das coisas simples e utilitárias, é o prazer da ligação do artista com o produto do seu trabalho, que se pode sintetizar na expressão "o artefacto é obra do artífice". Num mundo de mudanças também sociais, o recurso à obra artesanal é o retorno do Homem às formas mais singelas de arte, é a procura da autenticidade perdida, é a aventura da descoberta sentimental da cumplicidade do artesão com o produto do seu trabalho. A globalização, a que gera uniformidades, provoca certamente a homogeneidade cultural que desejamos evitar, salvaguardando aquilo com que nos identificamos há gerações.
Bibliografia
RAMOS, Francisco Martins
2007 Breviário Alentejano, Vale de Cambra: Caleidoscópio
SOMMIER, Gilbert
1984 Presente y Futuro de las Artesanías en la Sociedad Industrial, Madrid:
Ministerio de Industria y Energia
terça-feira, 30 de novembro de 2010
O corpo sangrento...do Alentejo
É do conhecimento de filósofos e historiadores ou de quem estudou e não esqueceu os seus ensinamentos, que as sociedades saídas do “ódio” (fruto da ignorância) ao tradicional, às raízes ancestrais defendendo com orgulho bacoco a “modernidade”, assinalam-se em grande parte por carradas de imoralidades desoladoras, onde a vida das raízes culturais mais ancestrais e as instituições suas defensoras valem menos do que pequenas ambições inexplicáveis ou, às vezes, caprichos passageiros...
O “corpo sangrento” do «Centro de Artes Tradicionais», uma vez encerrado pela Câmara Municipal de Évora, com a conivência da instituição de Estado denominada «Turismo do Alentejo», lança uma sombra que entenebrece por completo um Presidente de Câmara Municipal filho do Alentejo e, portanto, do mundo rural e tradicional mais característico, isto é, um cidadão oriundo da vila de Cuba, talvez uma das vilas alentejanas onde a tradição ligou o “cante” , o artesanato e formas de sociabilidade específicas, de forma mais conseguida!
Será que alguns alentejanos instalados no Poder de Estado (Autarquias e instituições disto e daquilo), começaram agora a ter vergonha das suas raízes, da sua terra-mãe?! Será que agora, manifestando escandalosa indiferença pelas origens, há uma classe de gente que julga que o design industrial, os desfiles de moda (afinal de contas de quem não sabe atar as ligas!), o servilismo bezunta de um “turismo” desgastado face ao estrangeiro, e outras mecanizadas e electrónicas patetices pós-modernas, é que nos trazem “consideração” internacional e respeitabilidade cultural?!
Esta gente não é de “direita”, do “centro” ou de “esquerda”! Esta gente não é parecida com nada!!!
O Alentejo está de luto!
Fecharam o «Centro de Artes Tradicionais»... como quem acintosamente sabe que está a “renegar a mãe”... de que têm “vergonha”! Como quem sabe que está a dizer que “tem vergonha” das suas raízes rurais!
Que obscenidade estes alentejanos! Que Deus lhes perdoe o mal que andam a fazer ao Alentejo!
O Alentejo está de luto!
Palminha da Silva in A defesa
O “corpo sangrento” do «Centro de Artes Tradicionais», uma vez encerrado pela Câmara Municipal de Évora, com a conivência da instituição de Estado denominada «Turismo do Alentejo», lança uma sombra que entenebrece por completo um Presidente de Câmara Municipal filho do Alentejo e, portanto, do mundo rural e tradicional mais característico, isto é, um cidadão oriundo da vila de Cuba, talvez uma das vilas alentejanas onde a tradição ligou o “cante” , o artesanato e formas de sociabilidade específicas, de forma mais conseguida!
Será que alguns alentejanos instalados no Poder de Estado (Autarquias e instituições disto e daquilo), começaram agora a ter vergonha das suas raízes, da sua terra-mãe?! Será que agora, manifestando escandalosa indiferença pelas origens, há uma classe de gente que julga que o design industrial, os desfiles de moda (afinal de contas de quem não sabe atar as ligas!), o servilismo bezunta de um “turismo” desgastado face ao estrangeiro, e outras mecanizadas e electrónicas patetices pós-modernas, é que nos trazem “consideração” internacional e respeitabilidade cultural?!
Esta gente não é de “direita”, do “centro” ou de “esquerda”! Esta gente não é parecida com nada!!!
O Alentejo está de luto!
Fecharam o «Centro de Artes Tradicionais»... como quem acintosamente sabe que está a “renegar a mãe”... de que têm “vergonha”! Como quem sabe que está a dizer que “tem vergonha” das suas raízes rurais!
Que obscenidade estes alentejanos! Que Deus lhes perdoe o mal que andam a fazer ao Alentejo!
O Alentejo está de luto!
Palminha da Silva in A defesa
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
O ARTESANATO, A MEMÓRIA E A FELICIDADE (1)
Por Francisco Martins Ramos In Diário do Sul 24 de Novembro de 2010
Antropólogo, Professor Emérito da Universidade de Évora
Uma certa massificação de apoios ao artesanato nacional - por vias autárquicas, empresariais e da União Europeia - já conduziu a situações caricatas de concorrência inesperada: em feiras internacionais, tapetes em ponto de Arraiolos, feitos por mãos tristes e pobres de mulheres filipinas, chinesas e brasileiras, surgem por menos de metade dos nossos preços. Parece que a moda não vai ter continuidade: as artesãs filipinas, chinesas e brasileiras precisam muito do pão para a boca, mas não possuem a tradição cultural que lhes permita a assimilação do bordado arraiolense. É um fenómeno contra a natureza das suas culturas.
A actividade artesanal, elemento essencial das sociedades pré-industriais, vê-se confrontada, nos dias que correm, com os desafios que as fantasias de uma certa pós-modernidade lhe impõem. Nestes breves apontamentos, tentarei focar aspectos importantes dessa problemática face às encruzilhadas do futuro. Antes disso, porém, tornam-se necessárias algumas considerações preliminares que nos ajudem a compreender melhor a questão em causa.
A sedimentação cultural do homem alentejano foi um processo moroso, progressivo e relativamente recente. Tão recente como o povoamento sistemático do sul do País. Para além disso, a identidade cultural do Homem transtagano está amalgamada (como Português - produto cultural), através de contributos e inputs variados como o greco-latino, o indo-europeu, o árabe e o judaico, num processo que acaba por solidificar tardiamente.
O artesão produz, possui propriedade sobre o produto do seu trabalho e sobre o seu instrumento (!!). Para além da importância destes aspectos jurídicos, outra ordem de factores é determinante para a afirmação artesanal: questões económicas, artísticas, intelectuais e culturais.
Os artefactos são objectos de vida gerados por dedos dóceis ou por mãos habilidosas e calejadas por trabalhos doutros tempos, que sabem dar forma estética e prática ao embaraço que a imaginação do artesão sabe domesticar.
A transferência do carácter utilitário da obra produzida para funções estético-decorativas não deixou também de provocar uma machadada no fluxo artesanal que passou do campo da necessidade para a área do desejo e do estético, muito condicionada economicamente pela situação do comprador.
Apesar da tardia industrialização portuguesa e da fraqueza do processo a nível da região Alentejo, há uma vintena de anos apenas as mantas de Reguengos, os pratos do Redondo e de São Pedro do Corval e os tapetes de Arraiolos tinham ultrapassado (e mal) as fronteiras da vulgaridade.
Mas o artesanato tem sobrevivido num país rural como o nosso, apesar da abundância de factores conducentes à sua morte. Somos um país de artesãos, a vários níveis. O que parece o gracejo da metáfora (que o é) tem raízes profundas na nossa periferia cultural, intelectual e tecnológica.
No Alentejo o artesanato é, ainda, uma fonte inesgotável, de acordo com a disponibilidade e riqueza dos materiais, as necessidades impostas pela vida rural (e urbana) e a criatividade dos artífices. Numa região onde a ruralidade é um valor, o Alentejo gerou a manutenção de produtos artesanais ligados ao sector primário; por isso, algumas profissões tradicionais chegaram até aos nossos dias, nomeadamente na sua vertente utilitária. Em contra-partida, a normalização industrial, o fabrico em série, a redução dos custos de produção e o desenvolvimento tecnológico acabaram por sufocar as actividades complementares da agricultura, que perderam utilidade e funcionalidade.
A situação agonística de algum artesanato é bem ilustrada pelo desabafo de um septuagenário cesteiro alentejano, que já só faz cestos “quando está triste, quando tem saudades dos filhos e quando a mulher o amola”.
Cada artefacto é uma obra-prima que legitima a mestria do artífice, de braço dado com a sua imaginação, na aventura do belo, privilegiando a função utilitária ou decorativa, aqui e além jogando com a integração tecnológica e traduzindo-se em incorporação pessoal e afirmação afectiva.
É uma realidade indesmentível que a magia artesanal se encontra, se molda, se esconde, se desenha, se tece, se afaga e se burila nas mãos e nos pensamentos dos mais velhos. Estes, que constituem, afinal, a fonte de toda a cultura tradicional, são o elo de ligação com outras gerações, não apenas para matar saudades e encher os manuais de nostalgias, mas como verdadeiros transmissores de saberes antigos, que se actualizam permanentemente e que é preciso guardar no coração da identidade alentejana.
Parafraseando muito a propósito Sommier (1984), posso concluir afirmando que o artesanato é como a felicidade – só no momento em que desaparece é que damos conta do seu valor.
Bibliografia
RAMOS, Francisco Martins
2000 “Cestaria”, “Pedra”, “Metal”, Artesanato da Região
Alentejo, Lisboa: IEFP
1998 “Artes e Ofícios”, Guia da Oferta Turística da Região de
Turismo de Évora, Évora: RTE
SOMMIER, Gilbert
1984 Presente y Futuro de las Artesanías en la Sociedad
Industrial, Madrid: Ministerio de Industria y Energia
Antropólogo, Professor Emérito da Universidade de Évora
Uma certa massificação de apoios ao artesanato nacional - por vias autárquicas, empresariais e da União Europeia - já conduziu a situações caricatas de concorrência inesperada: em feiras internacionais, tapetes em ponto de Arraiolos, feitos por mãos tristes e pobres de mulheres filipinas, chinesas e brasileiras, surgem por menos de metade dos nossos preços. Parece que a moda não vai ter continuidade: as artesãs filipinas, chinesas e brasileiras precisam muito do pão para a boca, mas não possuem a tradição cultural que lhes permita a assimilação do bordado arraiolense. É um fenómeno contra a natureza das suas culturas.
A actividade artesanal, elemento essencial das sociedades pré-industriais, vê-se confrontada, nos dias que correm, com os desafios que as fantasias de uma certa pós-modernidade lhe impõem. Nestes breves apontamentos, tentarei focar aspectos importantes dessa problemática face às encruzilhadas do futuro. Antes disso, porém, tornam-se necessárias algumas considerações preliminares que nos ajudem a compreender melhor a questão em causa.
A sedimentação cultural do homem alentejano foi um processo moroso, progressivo e relativamente recente. Tão recente como o povoamento sistemático do sul do País. Para além disso, a identidade cultural do Homem transtagano está amalgamada (como Português - produto cultural), através de contributos e inputs variados como o greco-latino, o indo-europeu, o árabe e o judaico, num processo que acaba por solidificar tardiamente.
O artesão produz, possui propriedade sobre o produto do seu trabalho e sobre o seu instrumento (!!). Para além da importância destes aspectos jurídicos, outra ordem de factores é determinante para a afirmação artesanal: questões económicas, artísticas, intelectuais e culturais.
Os artefactos são objectos de vida gerados por dedos dóceis ou por mãos habilidosas e calejadas por trabalhos doutros tempos, que sabem dar forma estética e prática ao embaraço que a imaginação do artesão sabe domesticar.
A transferência do carácter utilitário da obra produzida para funções estético-decorativas não deixou também de provocar uma machadada no fluxo artesanal que passou do campo da necessidade para a área do desejo e do estético, muito condicionada economicamente pela situação do comprador.
Apesar da tardia industrialização portuguesa e da fraqueza do processo a nível da região Alentejo, há uma vintena de anos apenas as mantas de Reguengos, os pratos do Redondo e de São Pedro do Corval e os tapetes de Arraiolos tinham ultrapassado (e mal) as fronteiras da vulgaridade.
Mas o artesanato tem sobrevivido num país rural como o nosso, apesar da abundância de factores conducentes à sua morte. Somos um país de artesãos, a vários níveis. O que parece o gracejo da metáfora (que o é) tem raízes profundas na nossa periferia cultural, intelectual e tecnológica.
No Alentejo o artesanato é, ainda, uma fonte inesgotável, de acordo com a disponibilidade e riqueza dos materiais, as necessidades impostas pela vida rural (e urbana) e a criatividade dos artífices. Numa região onde a ruralidade é um valor, o Alentejo gerou a manutenção de produtos artesanais ligados ao sector primário; por isso, algumas profissões tradicionais chegaram até aos nossos dias, nomeadamente na sua vertente utilitária. Em contra-partida, a normalização industrial, o fabrico em série, a redução dos custos de produção e o desenvolvimento tecnológico acabaram por sufocar as actividades complementares da agricultura, que perderam utilidade e funcionalidade.
A situação agonística de algum artesanato é bem ilustrada pelo desabafo de um septuagenário cesteiro alentejano, que já só faz cestos “quando está triste, quando tem saudades dos filhos e quando a mulher o amola”.
Cada artefacto é uma obra-prima que legitima a mestria do artífice, de braço dado com a sua imaginação, na aventura do belo, privilegiando a função utilitária ou decorativa, aqui e além jogando com a integração tecnológica e traduzindo-se em incorporação pessoal e afirmação afectiva.
É uma realidade indesmentível que a magia artesanal se encontra, se molda, se esconde, se desenha, se tece, se afaga e se burila nas mãos e nos pensamentos dos mais velhos. Estes, que constituem, afinal, a fonte de toda a cultura tradicional, são o elo de ligação com outras gerações, não apenas para matar saudades e encher os manuais de nostalgias, mas como verdadeiros transmissores de saberes antigos, que se actualizam permanentemente e que é preciso guardar no coração da identidade alentejana.
Parafraseando muito a propósito Sommier (1984), posso concluir afirmando que o artesanato é como a felicidade – só no momento em que desaparece é que damos conta do seu valor.
Bibliografia
RAMOS, Francisco Martins
2000 “Cestaria”, “Pedra”, “Metal”, Artesanato da Região
Alentejo, Lisboa: IEFP
1998 “Artes e Ofícios”, Guia da Oferta Turística da Região de
Turismo de Évora, Évora: RTE
SOMMIER, Gilbert
1984 Presente y Futuro de las Artesanías en la Sociedad
Industrial, Madrid: Ministerio de Industria y Energia
sábado, 20 de novembro de 2010
Vem aí o museu da vergonha.
Museu de artesanato de Évora encerrou.
O museu de artesanato de Évora, que existia desde 1962 e que foi alvo de remodelação há apenas dois anos, com mais de um milhão de euros pagos pelo contribuinte, encerrou para novas obras de adaptação. Vai ser entregue a um privado, ao alegado professor Paulo Parra, para nele fazer o seu museu do design e da vaidade pessoal. Para ser famoso basta isso. Não é necessário prestar serviços públicos de relevância. Não é preciso destacar-se em prol da comunidade. Basta comprar uma colecção de qualquer coisa e pôr os amigos e os jornais a dizer bem dela. Bem ou mal, não interessa. Basta encontrar dois deslumbrados que mandem alguma coisa de interesse público e convencê-los que somos um “ícone mundial”. Será o museu do amiguismo de Évora. Vai ser conhecido a nível nacional como a prova que ser amigo do poder compensa. O museu que num país civilizado seria um caso de polícia. A prova de que ter amigos nos lugares certos nos dá impunidade total e nos permite parasitarmos o contribuinte até ao limite da racionalidade, da vergonha e para além destas. Vai ser o museu da cunha. Da inimputabilidade política que demonstra que não existe justiça neste oeste selvagem que é o nosso país, onde o povo é manso e não se importa até de passar fome no lugar de questionar a classe política medíocre que nos rege. Vai ser o museu da vergonha de Évora. O museu dos que não querem saber da sua terra nem da sua cultura. Dos que dão mais importância à aparência de fazer alguma coisa. Dos que preferem a mesquinhez do diz que disse que o futuro que deveriam construir para os seus filhos. Vai ser o museu que prova que somos os porcos da europa. Que estendemos a mão como pedintes porque não temos o que comer e que mal nos apanhamos com ela cheia fazemos festas de arromba para os amigos, com os europeus que nos deram a esmola de boca aberta a verem este espectáculo. Vai ser o museu de Ceia da Silva, presidente do turismo do Alentejo, e de Ernesto Oliveira, presidente da câmara municipal de Évora, e das suas raivas e rancores contra esta cidade que não compreendem e que em boa verdade nunca os aceitou. Será o museu também da sua inimputabilidade política. Um dia terão de se explicar. Não à sociedade. Terão de se explicar aos seus filhos e netos. Vão ter de encontrar uma desculpa para este acto bárbaro e odioso. O prazer de mandar por mandar é um prazer pífio. É o vazio dos medíocres. Gerir com saber, justiça e sensibilidade está muito para lá do conhecimento de pequenos tiranetes de província. Exige homens com H grande. Homens maiores que a sua saloia vaidade pessoal. Homens a sério.
Que Deus vos perdoe.
Tiago Cabeça
Artesão
in Semanário Registo 18 Novembro de 2010
O museu de artesanato de Évora, que existia desde 1962 e que foi alvo de remodelação há apenas dois anos, com mais de um milhão de euros pagos pelo contribuinte, encerrou para novas obras de adaptação. Vai ser entregue a um privado, ao alegado professor Paulo Parra, para nele fazer o seu museu do design e da vaidade pessoal. Para ser famoso basta isso. Não é necessário prestar serviços públicos de relevância. Não é preciso destacar-se em prol da comunidade. Basta comprar uma colecção de qualquer coisa e pôr os amigos e os jornais a dizer bem dela. Bem ou mal, não interessa. Basta encontrar dois deslumbrados que mandem alguma coisa de interesse público e convencê-los que somos um “ícone mundial”. Será o museu do amiguismo de Évora. Vai ser conhecido a nível nacional como a prova que ser amigo do poder compensa. O museu que num país civilizado seria um caso de polícia. A prova de que ter amigos nos lugares certos nos dá impunidade total e nos permite parasitarmos o contribuinte até ao limite da racionalidade, da vergonha e para além destas. Vai ser o museu da cunha. Da inimputabilidade política que demonstra que não existe justiça neste oeste selvagem que é o nosso país, onde o povo é manso e não se importa até de passar fome no lugar de questionar a classe política medíocre que nos rege. Vai ser o museu da vergonha de Évora. O museu dos que não querem saber da sua terra nem da sua cultura. Dos que dão mais importância à aparência de fazer alguma coisa. Dos que preferem a mesquinhez do diz que disse que o futuro que deveriam construir para os seus filhos. Vai ser o museu que prova que somos os porcos da europa. Que estendemos a mão como pedintes porque não temos o que comer e que mal nos apanhamos com ela cheia fazemos festas de arromba para os amigos, com os europeus que nos deram a esmola de boca aberta a verem este espectáculo. Vai ser o museu de Ceia da Silva, presidente do turismo do Alentejo, e de Ernesto Oliveira, presidente da câmara municipal de Évora, e das suas raivas e rancores contra esta cidade que não compreendem e que em boa verdade nunca os aceitou. Será o museu também da sua inimputabilidade política. Um dia terão de se explicar. Não à sociedade. Terão de se explicar aos seus filhos e netos. Vão ter de encontrar uma desculpa para este acto bárbaro e odioso. O prazer de mandar por mandar é um prazer pífio. É o vazio dos medíocres. Gerir com saber, justiça e sensibilidade está muito para lá do conhecimento de pequenos tiranetes de província. Exige homens com H grande. Homens maiores que a sua saloia vaidade pessoal. Homens a sério.
Que Deus vos perdoe.
Tiago Cabeça
Artesão
in Semanário Registo 18 Novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
MUSEU DE ARTESANATO DE ÉVORA ENCERROU HOJE
Apenas dois anos após a sua reabertura, que custou mais de um milhão de euros ao erário público, encerrou hoje o CAT, Centro de artes tradicionais, antigo Museu de artesanato de Évora que existia desde 1962.
Segundo o Turismo do Alentejo, que afirmou "não ter verba nem vocação para gerir museus", foi encerrado para obras de adaptação ao novo museu de design e artesanato Paulo Parra.
O Museu privado de design tem abertura prevista para o verão de 2011 e, segundo protocolo estabelecido entre a Câmara, o Turismo e o coleccionador, será suportado pelo contribuinte até 2021.
Segundo o Turismo do Alentejo, que afirmou "não ter verba nem vocação para gerir museus", foi encerrado para obras de adaptação ao novo museu de design e artesanato Paulo Parra.
O Museu privado de design tem abertura prevista para o verão de 2011 e, segundo protocolo estabelecido entre a Câmara, o Turismo e o coleccionador, será suportado pelo contribuinte até 2021.
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